Luís Corte Real: “Os portugueses leem cada vez menos”

(Fotos: Divulgação)

Mas, apesar disto, o editor da Saída de Emergência, a empresa líder no segmento de literatura Fantástica em Portugal, não pensa desistir. E a coleção Bang que, contra tudo e todos, agrega uma vasta lista de títulos dentro do género, um festival que traz autores de projeção mundial e uma revista de luxo, avança agora para um Podcast – em operação há um mês e que terá uma emissão especial na edição em curso do Motelx, na quinta-feira (09/09).

Além disto, Corte Real avança ele próprio como escritor de ficção com “O Deus das Moscas Tem Fome“, a primeira parte do que poderá vir a ser uma trilogia, apresentada no último final de semana na Feira do Livro de Lisboa. O livro apresenta o primeiro detetive do oculto português (Benjamim Tormenta) e a (abundante) ação decorre na capital lusitana do século XIX – com direito a reconstruções de época baseada em Eça de Queiróz e em fontes que descrevem os bairros marginais da cidade naqueles tempos…

Também pelo Motelx, um evento apresentará, na quarta-feira (08/09), “Os Contos mais Épicos de Conan“, edição de luxo na linha do que já foi feito com H.P. Lovecraft e Edgar Allan Poe. Desenhos de 23 ilustradores portugueses convidados especialmente para o projeto abrilhantam esse agregado de histórias de Robert E. Howard e a sua Era Hiboriana.

A GUERRA DOS TRONOS

Conforme relata o editor, a Saída de Emergência existe desde 2003 e surgiu com a premissa de publicar obras ligadas ao género fantástico. Mas rapidamente apercebeu-se que o projeto não era comercialmente viável: o público português, para além de restrito, facilmente recorria a edições importadas dos livros – minando o mercado. Assim, outros autores e temas passaram a fazer parte do catálogo e garantindo a sustentabilidade. Um dos autores foi… Nora Roberts. “O público do fantástico pode desprezá-la, mas ela garante as suas publicações”, brinca.

Passados estes anos o mercado não melhorou: grandes grupos foram engolindo e inviabilizando os pequenos e, se todas as iniciativas da coleção Bang persistem, é pela paixão do editor pelo género. “Se um grande grupo comprasse a Saída de Emergência a coleção era encerrada no dia a seguir. Estas empresas têm gestores que vêm de outros ramos, nem sequer são leitores, e suas estratégias são estritamente comerciais”, observa. A gigante Amazon, que veio facilitar a aquisição das edições originais dos livros, aprofundou o problema.

Na trajetória, no entanto, uma aposta acabou revelar-se o merecido pote de ouro no fim do arco-íris – um autor norte-americano que havia lançado uma série de livros sem que ninguém, por estas alturas, pudesse adivinhar o fenómeno no qual ele se tornaria. Claro que se trata de George R.R. Martin, cuj’A Guerra dos Tronos transformou-se no fenómeno televisivo pela mão da HBO. O resultado foi óbvio: os livros passaram a vender como água. “Infelizmente, o George Martin é como um cometa, só muito raramente acontece. E agora, por exemplo, ninguém sabe quando ele vai entregar um novo livro. Está isolado e a escrever”, diz.

Por fim, um fator adicional aos obstáculos que o Fantástico em Portugal – o aparecimento do Facebook e do “streaming”. “Também dou minha contribuição”, afirma Corte Real. “Como qualquer pessoa uso o Facebook, mas a verdade é que foi uma desgraça em termos de destruição dos hábitos de leitura. Aliás, os portugueses leem cada vez menos: quando da pandemia, Portugal foi o único país da Europa onde a taxa de leitores decresceu. As pessoas atiraram-se ao Facebook e ao ‘streaming’”.

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