Quatro anos depois de “Les Gardiennes” (As Guardiãs), Xavier Beauvois (Dos Homens e dos Deuses) retorna com “Albatros“, um drama que se passa em Étretat e que segue a história de Laurent (Jérémie Renier), comandante da brigada da policia que planeia se casar com Marie, a sua companheira, mãe da sua filha Poulette. Dedicado ao trabalho, apesar do confronto diário com a miséria social, este homem vai entrar numa crise existencialista quando, ao tentar salvar um homem que ameaça cometer suicídio, mata-o acidentalmente.
Famoso pelo trabalho como ator em filmes de cineastas como François Ozon (Potiche – Minha Rica Mulherzinha; O Amante Duplo) ou os irmãos Dardenne (O Silêncio de Lorna; O Miúdo da Bicicleta), além de colaborações com Olivier Assayas (Tempos de Verão), Bertrand Bonello (Saint Laurent) e até Martin McDonagh (Em Brugges), Renier teve em “Albatros“ um dos seus papéis mais brilhantes do cinema em 2021, preenchendo a sua personagem de silêncios, indecisões e crises mal a tragédia o atinge.

Uma personagem que criou com ajuda das autoridades policiais, como nos explicou em entrevista no último Festival de Berlim: “Tive a hipótese de entrar numa esquadra um mês antes das filmagens. A esquadra que o nosso filme mostra. Fui confrontado por essa realidade em permanência durante um mês. Observei o trabalho dos policias, as suas conversas. Tudo isto ajudou a criar uma maior veracidade à personagem e ao filme. O desejo do Xavier Beauvois era captar tudo de forma bem realista e que soasse credível, em particular a minha personagem“.
Apesar da amizade que partilha com o realizador, Jérémie Renier diz que o principal motivo que o levou a protagonizar este “Albatros“ foi a força do guião, “que o atraiu imediatamente“. Um guião ao qual se entregou de corpo e alma, passando por várias dificuldades físicas, tal a exigência de realismo exigida pelo realizador, alguém que o próprio ator apelidade “de viciado no real” . No filme, no seu último terço, Renier parte numa embarcação sem destino, tendo aprendido a navegar por causa disso, e sofrendo alguns contratempos como episódios de hipotermia e desidratação. Ainda assim, não tem dúvidas: “Não conhecia o mar, mas neste filme apaixonei-me por ele e por navegar“.
Outro elemento que o ajudou a construir a sua personagem, especialmente em de construção psicológica, foi a forma como “Albatros“ foi filmada, cronologicamente, tendo Renier de lidar com muitos não-atores, que acrescentaram o naturalismo pretendido à produção.
E além da vertente de estudo psíquico de um homem afetado pela tragédia, o autor belga diz que a camada social e política que o filme contempla, retratada em torno dos problemas de muitos agricultores e de pessoas que vivem em regiões mais isoladas, são fundamentais de abordar nos tempos que correm, para bem do próprio cinema, que se deseja relevante em termos políticos e sociais.
Renier, o realizador
Para Renier, a pandemia trouxe como maior dissabor não a falta de trabalho, mas sim o enfunilamento de projetos que se amontoam agora para estrear. “Tenho cinco filmes nessa situação“, disse-nos o ator que há cerca de 3 anos, com “Carnivores“, estreou-se na realização. E vem aí um segundo filme com ele sentado na cadeira de realizador, confessou-nos, para o qual está a trabalhar intensamente para que aconteça, comece a ser filmado, ainda este ano.

