É alternando os bastidores onde Ney Matogrosso se maquilha com as imagens de repressão da ditadura militar do Brasil no início dos anos 70 que o realizador Felipe Nepomuceno abre o seu “Ney à Flor da Pele”. Essa acabou por ser uma das ideias de marca na análise histórica do surgimento dos Secos & Molhados, banda que gravou uma série de clássicos e vendeu mais de um milhão de cópias do seu álbum de estreia, lançado em 1973.
Por outras palavras, como era possível alguém ter coragem para aparecer com aquele figurino e a dançar daquela forma no auge da repressão militar no Brasil? Conforme diz o cineasta ao C7nema, “é difícil imaginar o que se passa na cabeça de um censor e imaginar alguma lógica no governo militar do Brasil na década de 70. De qualquer forma, a coragem é um dos traços mais distintivos do Ney”.

Num livro sobre Ney Matogrosso, Rita Lee brincava com a hipótese de que ele seria o “David Bowie tupiniquim”; já houve quem também o comparasse com os Kiss. Facto é que o cantor não conhecia Bowie na altura e não havia nenhuma ligação com o “glam rock” britânico; já o grupo de “hard rock” norte-americano veio depois. A verdadeira inspiração surgiu, primeiro da longa experiência do cantor no teatro e, mais especificamente, do “kabuki” japonês.
“Além da música ele foi sempre ligado ao teatro”, diz o cineasta. “Destacaria também a ligação visceral com a natureza e a sua admiração pelo mundo indígena”. E qual era um dos objetivos principais deste teatro andrógino? Segundo Ney Matogrosso, a ideia era de libertação, de fugir dos padrões da classe média.
Após conflitos envolvendo as finanças (o cantor reiterará diversas vezes o seu pouco apego ao dinheiro), sai dos Secos & Molhados e começa a carreira solo com “Água do Céu, Pássaro”, em 1975. O figurino evoca a paixão pela natureza: pé no chão, osso, pele, terra. Elementos que marcam um dos primeiros telediscos feitos no Brasil – exatamente de um dos clássicos do álbum, “América do Sul”.
Pelo fim dos anos 70 a experiência e uma nova forma de estar do cantor refletem-se na imagem: a maquiagem vai ficando cada vez menor – até desaparecer. “Eu usava máscaras porque tinha muito medo, vergonha. Agora não tenho mais medo de nada”, diz ele.
Um dos maiores clássicos de Ney, “Balada do Louco”, regravação de um original dos Mutantes, tem versos perfeitos para ilustrar a sua persona – o que talvez explique que a sua versão tenha ficado mais icónica do que a dos célebres “enfant terribles” da Tropicália. “Eu juro que é melhor / não ser um normal / se eu posso pensar que Deus sou eu”.
Em outro momento curioso retratado pelo filme, o cantor está num debate, que também inclui Caetano Veloso, onde o psicanalista Eduardo Mascarenhas sugere que estes artistas eram “profetas” de numa nova era que daria os seus frutos no século XXI… Não é muito certo que tal tenha acontecido mas, de qualquer forma, a lição foi dada. “A liberdade do Ney é uma mensagem, talvez a sua maior obra”, observa Filipe. “Acredito que suas interpretações no palco são uma semente para um futuro com menos preconceitos e moralismos”.

