Existe uma expressão carioquíssima, ou seja, típica do Rio de Janeiro, que diz “dançamos para não dançar”, no sentido de que é preciso bailar para não escorregarmos e cairmos, como se viu na cidade mais internacionalmente conhecida do Brasil nos últimos anos, sobretudo ao longo da administração do antigo presidente da câmara (prefeito) Crivella. Essa expressão ganha contornos líricos no filme “Fantasma Neon”, um dos concorrentes da mostra competitiva de curtas Pardi di Domani, uma das atrações do 74º Festival de Locarno. Leonardo Martinelli, que travou com o C7nema a conversa a seguir, é o realizador desse musical de tintas sociais sobre João (Dennis Pinheiro), um entregador de comida por apps às voltas com as contradições do seu país. Dennis é um dos astros de maior destaque do teatro cantado brasileiro hoje. E ele contracena com Sivero Pereira, o Lunga de “Bacurau” (2019), em cena. Martinelli, hoje com 23 anos, disseca os ingredientes sociológicos da sua curta nesta conversa.
Qual é o Rio de Janeiro que você retrata em cena? Qual é o sentido político de se reposicionar o Centro do rio – região outrora essencial política e economicamente à sua cidade, hoje gradualmente abandonada?
Nos filmes que dirijo, sempre busco refletir elementos que sejam característicos dos espaços nos quais as personagens habitam. Acredito que há uma riqueza em tratar a cidade como uma extensão das próprias personagens – um espaço que carrega histórias, belezas, cicatrizes e contradições. O entregador de aplicativo é uma das figuras mais onipresentes ao imaginar uma metrópole contemporânea. Ao mesmo tempo que habitam todas as esferas da cidade, esses trabalhadores enfrentam o seu lado mais hostil. Ao posicionar o Centro do Rio como um dos principais espaços em “Fantasma Neon”, buscamos contrastar um espaço arcaico com um personagem contemporâneo. Ao mesmo tempo, destacamos as intervenções e cicatrizes do tempo nesses espaços, como as pichações e intervenções urbanas, trazendo a dança e o musical como um elemento de reapropriação. O palco do Teatro Riachuelo, também no Centro, no final do filme, procura trazer o contraste de um espaço de cultura que acaba tornando-se pouco acessível para uma grande parcela da classe trabalhadora.
De que maneira o filme é (ou pode ser) um estudo sobre a pandemia e as classes profissionais que se destacaram com ela?
Diversos trabalhos que já eram precários se tornaram ainda mais com a pandemia. Já tínhamos o projeto deste filme desde antes do descontrole da covid-19. Entretanto, essas questões ressignificaram e enfatizaram o contexto vexatório no qual esses trabalhadores e tantos outros autónomos são obrigados a conviver. Nesse sentido, “Fantasma Neon” é um filme que busca trazer esse contexto de trabalho no mundo pandémico, mas também procura ir além disso, para comentar grande imagem do cenário trabalhista brasileiro, e como a linguagem do cinema pode retratar isso através do musical e do hibridismo.
Que universo é esse o das entregas rápidas e quais as violências que o cercam?
A exposição e a precarização sofridas por trabalhadores de entrega serve como uma analogia para grande parte do cenário trabalhista e social brasileiro. São trabalhadores que enfrentam situações tão absurdas que chegam a soar cartunescas. Enfrentando a violência literal e simbólica de clientes, do aplicativo e da própria cidade, esses trabalhadores são a materialização dos riscos que enfrentamos com a extinção de direitos trabalhistas.

