No clássico de ação e ficção científica “Terminator”, que Gale Anne Hurd produziu em 1984 (tal como sequelas, com exceção da última), as máquinas são um verdadeiro inimigo do homem, mas para a produtora, no que diz respeito ao cinema, elas têm tornado o seu trabalho mais prolífico, embora não necessariamente melhor ou mais fácil.

Homenageada no Festival de Locarno, a produtora que tem ainda no seu currículo filmes como “Alien” e “Armagedão”, além da famosa série “The Walking Dead”, sentou-se à mesa com o C7nema e explicou como a tecnologia a tem ajudado, mas igualmente como ela rejeita sistematicamente qualquer aproximação de empresas que prometem prever, a partir de um guião e centenas de parâmetros, o que vai ser um flop ou sucesso no box-office: “Não ligo a mínima a qualquer tipo de previsão, porque elas têm estado quase sempre erradas a 100%. Já fui abordada por empresas que me dizem que têm algoritmos especiais que dizem o que vai ter sucesso a partir dos dados e parâmetros que têm, mas a verdade é que não levam em conta quem faz parte do elenco, a realização e o marketing. E também não têm em conta se existe uma pandemia, ou que os cinemas estão fechados. Não acredito que um algoritmo possa substituir alguém. Por exemplo, fiquei triste ao ver a última câmara de película que a Arriflex fez. Necessariamente não acho que a inovação [tecnológica] permita criar um filme melhor. O David Lean fez o ‘Lawrence da Arábia’ e não acho que possas fazer esse filme melhor. E eles tiveram uma produção física, sem a tecnologia que temos hoje. Porém, é também verdade que a tecnologia permitiu facilitar as coisas no cinema. Por exemplo, na montagem digital. Antes tinhas de literalmente fazer a montagem física do filme, colar tudo para poderes ver um “cut” diferente. Isto foi uma mudança na indústria excecional que permitiu ir mais longe na 7ª arte. Fazes os filmes mais rapidamente com câmaras digitais, mas necessariamente isso não trouxe melhores filmes.”
Fã absoluta de cinema internacional (disse-nos que viu 80 dos filmes submetidos ao Oscar de Melhor Filme Internacional este ano), Gale Anne Hurd foi um exemplo raro de uma mulher que triunfou na indústria norte-americana nos anos 80, 90 e 2000, em particular no dito cinema de género. Uma verdadeira “trailblazer”, como muitos a definem, ela aponta o dedo a outra mulher que serviu de inspiração e a ajudou muito na carreira: Debra Hill.
“Tenho de lhe dar esses créditos. Ela fez tudo isto muito antes de mim. Quando és o primeiro ou o único numa posição destas na indústria, podes fazer uma de duas coisas: podes puxar as pessoas que estão abaixo de ti para cima, ou então pisá-los e empurrá-los para baixo. A Debra Hill puxou por mim e disse-me que eu podia fazer isto. Falamos muito sobre isto, mas não naquela postura de ‘somos mulheres’ [numa indústria de homens]. Falamos de como ser melhores produtoras, como contar melhor histórias e ser levadas mais a sério nas filmagens. Aquilo que devemos fazer e o que não. No meu caso, tive de fazer as coisas de forma diferente da dela, mas sem a sua ajuda não estaria aqui. Para mim, ela sim é a verdadeira ‘trailblazer’. Antes de mim, ela já tinha feito o “Halloween”, “Escape From New York”, “Assalto à Esquadra 13”. Ela produziu filmes de ação, thrillers, ficção científica e horror. Eu percebi que era uma pioneira, essa tal de ‘trailblazer’, quando alguém disse-me: ‘queremos dar-lhe este prémio em honra pelo seu trabalho’. A verdade é que nesta profissão andas tão ocupado com o teu próximo filme que não paras para pensar no que já fizeste para trás, no que mudaste numa indústria. E claro, que quando certas mulheres vinham até mim e diziam obrigado pelo que fize, ou que o que disseste numa entrevista inspirou-as, isso ainda foi mais importante.”

Falando do cinema e dos tempos difíceis que se vivem, não só pelo surgimento das plataformas de streaming, mas pela pandemia que fechou as salas e deixou tudo muito mais incerto para o futuro, a produtora afirma-se esperançosa, mas extremamente cautelosa: ”Os estúdios de cinema estão a passar por dificuldades e as salas de cinema ainda mais. Não conseguimos prever o próximo grande problema pandémico. Não sabemos ainda completamente onde esta variante Delta nos vai levar. Neste momento queremos acreditar que os cinemas vão reabrir e que todos nós vamos voltar com segurança a eles. É ótimo, por exemplo, estar aqui em Locarno e poder ver filmes seguramente, novamente juntos. Mas estes são tempos muito complexos e de indecisão. Ter uma pandemia ao mesmo tempo que o streaming está em crescimento, além da redução do tempo de estreia em sala em relação ao VOD ou plataformas de streaming foi muito de uma só vez. Estou esperançosa, mas temos ainda de esperar por tudo o que ainda falta lidar em relação à pandemia.”

