Feathers: o drama absurdo sobre o homem que se transforma numa galinha

(Fotos: Divulgação)

Vencedor do Grande Prémio Nespresso na Semana da Crítica, o filme egípcio “Feathers”, de Omar El Zohairy, foi uma verdadeira sensação aquando da sua exibição no certame, na passada quarta-feira.

Regado a planos fixos em que cada sequência parece construída como um quadro vivo, “Feathers” nasceu há quatro anos após o convite da Cinéfondation de Cannes para a submissão de um projeto do cineasta. 

“É um drama absurdo”, diz Zohairy sobre o seu filme, no qual uma mulher é obrigada a ter de sobreviver com os seus três filhos após o marido se transformar numa galinha depois de um truque de magia correr mal. 

Logo após a estreia do filme em Cannes, falámos com o cineasta, que nos deu detalhes sobre esta produção, bem como as suas influências, onde não faltam os europeus Bresson e Kaurismaki e os egípcios Youssef Chahine, e principalmente o realizador de filmes de culto Khairy Beshara.

Antes de mais, vamos falar um pouco da estética do filme e da opção de apresentar sequências onde a câmara nunca se movimenta e deixa os atores entrarem e saírem dos enquadramentos fixos…

Queria criar a sensação de que o espectador estava sentado com as pessoas que estão enquadradas dentro da frame. Decidi não mexer a câmara e usar uma lente que transmitisse a mesma sensação do olho humano. E quando quero aproximar-me dessas pessoas, uso a lente. Queria que as imagens fossem nítidas de maneira a vermos tudo. É uma forma de entrarmos no filme e esquecer que está uma câmara a filmar. Queria criar um sentimento de realidade. 

Um pouco também como se estivéssemos a olhar para um palco teatral…

Sim, pensei muito nisso. Gosto de usar os atores para criar o movimento. Misturo teatro com fotografia e cinema para criar este efeito. As minhas cenas são como fotografias. O que é bom na fotografia como arte é que chamas a atenção apenas com uma frame. Todas as sequências são um retrato com todos os detalhes e onde as pessoas fazem o que fariam normalmente. 

Omar El Zohairy

Outro elemento curioso no seu filme é que a protagonista feminina praticamente não fala.

Sim, usa muito poucas palavras durante todo o filme.

Havia nisso alguma mensagem alegórica da ausência de voz das mulheres nestas situações de dependência e sobrevivência em relação aos maridos?

Não sou uma pessoa de alegorias, gosto de contar uma história humana. O que gosto nesta personagem é que ela é alguém que vive nas sombras sem nenhum detalhe em particular. É o que observamos quando a vemos pela primeira vez, mas à medida que a vamos conhecendo vai mostrando as suas características especiais. Ao ser silenciosa consegue mostrar ainda melhor o que sente. Sentimos que ela fala (expressivamente) mesmo que não o faça por palavras. Mas não existe verdadeiramente uma alegoria. No meu filme, o que vemos é o que é. Não tenho mensagens escondidas.

Tudo tem a ver com o seu status quo. Esta mulher estava habituada a viver sob a asa do marido e quando o perde começa a pensar que precisa de outro homem, mas depois a vida força-a a ser ela mesmo. É como se encontrasse uma força oculta nela.

Todo este filme é bastante surreal. Como teve a ideia para ele e quando avançou?

As ideias surgem sempre na minha mente. Neste caso, fui informado depois de verem a minha primeira curta, que havia um programa da Cinéfondation de residência artística. Se tivesse uma ideia, submetia-a e poderia eventualmente fazer uma longa-metragem. Nisto, um dia escrevi: o marido transforma-se numa galinha e a mulher enfrenta uma série de problemas com isso. Pensei que podíamos fazer um filme sobre esta mulher que aborda toda a transformação do marido em galinha de uma forma muito séria. 

E mistura géneros, pois este é um drama, mas também um thriller sobre uma mulher à procura da solução para o marido.

Sim e é muito absurdo com igualmente comédia. (…) No fundo, acho que estamos perante um drama absurdo. Há algo violento, há algo de poético. É uma mistura de coisas. 

Sim, o filme é muito poético. Em particular na construção dos silêncios…

Sim, sem dúvida. Eu trabalho muito no guião e tiro muitas fotografias nos locais de filmagens. Uso os silêncios bastante, mas igualmente os ruídos. O filme a certos momentos torna-se muito ruidoso. É uma montanha russa de estados os que vemos em cena.

Onde se posiciona dentro da indústria de cinema egípcio? O seu filme é de certa forma atípico atualmente num panorama de um cinema que tem muitos dramas mais explícitos nas emoções. Tenta ser uma nova voz na região?

Nem por isso. Na verdade sou muito egípcio e as minhas referências são locais, seja na música ou no humor. Estou totalmente integrado na cultura egípcia e misturo muitas coisas.

Não me cabe a mim fazer uma nova vaga do cinema egípcio, mas creio que apresento uma obra diferente da tradição egípcia e africana. Vejo-me como um realizador maleável. Quero ser eu mesmo.

O que é bom no cinema de autor egípcio, e ainda no ano passado ganhámos aqui a Palma de Ouro [curta-metragem], é que estamos a apresentar uma nova identidade. O que me faz estar muito orgulhoso deste filme é acima de tudo ser uma obra que vive mais da forma cinemática que dos tópicos que aborda.

É bom ver o cinema egípcio além dos tópicos que aborda. 

Últimas