O filme estreia hoje (15/07) em Portugal. Nele a realizadora Joana Pontes propõe uma reflexão sobre a forma como a fotografia foi utilizada para a construção da imagem de um Portugal imperial idealizado – ordeiro, civilizador e economicamente progressista. Uma exposição no Padrão dos Descobrimentos, em Belém, fornece uma espécie de complemento ao filme. O C7nema questionou a realizadora sobre alguns dos temas abordados em “Visões do Império”.
O ponto de partida é uma observação da memória familiar e de como frequentemente as fotos de quem nasceu em África olha para elas como se fossem tempos felizes. A partir daí, a cineasta reconstrói diversos momentos em que fotógrafos registaram as mais diversas incursões de portugueses pelo território com os mais variados objetivos.

Surgem aí missões científicas de cunho antropológico ou botânico, visitas presidenciais como a de Craveiro Lopes, com propósitos políticos bastante explícitos, e até mesmo uma singular “peregrinação” da estátua da Virgem cristã iniciada em 1947 e que, em dez anos, conseguiu chegar aos confins do território. Entre as fotografias mais pungentes estão a de colonos portugueses, muitos saídos de regiões muito pobres, como Trás-os-Montes, para ocupar territórios africanos – naquilo que o historiador Miguel Jerónimo designou como “exportação da pobreza”.
Um dos aspetos do seu filme é mostrar como a fotografia serviu para construir a ideia de um império harmónico e organizado – onde uma missão civilizadora branca é acompanhada de uma imagem de progresso. Ao mesmo tempo começa o filme pelas fotografias familiares e pela forma como parecem demonstrar de forma nostálgica um passado feliz. Acha que essa ideia de um império colonial benigno persiste no imaginário português?
Acho que sim, embora de forma um pouco ambígua. Confrontam-se as ideias mais comuns que ao longo do tempo têm passado através da educação e que falam de uma “missão civilizadora” com outras ideias, mais recentes, de uma ocupação não legítima, assente na desigualdade e na violência. É preciso alterar a forma como o passado colonial é mostrado e investir desde cedo nesse esclarecimento baseado em factos e investigações. Tal como está, a educação não dá resposta a este problema.
Há um momento onde demonstra que os abusos do poder ditatorial/imperial não afetavam só as populações africanas – como naquele momento onde o historiador Miguel Jerónimo fala na ocupação de territórios por colonos como uma espécie de “exportação da pobreza”.
Pouco se tem falado dos brancos pobres que partiram nos anos 50 das suas aldeias para outras “aldeias” em África, os colonatos. Talvez porque há uma generalização, falsa, de que todos brancos enriqueceram nas colónias. Como diz o Miguel, o que se passou foi bom para alguns, também havia brancos nos musseques.
Por vezes esquecemos de lembrar como era Portugal nos anos 50, altura em que muitos portugueses partiram: um país pobre, com elevados índices de analfabetismo, péssimos indicadores de saúde, carências graves de saneamento básico, de uma rede que ligasse o território, por aí fora. Por isso, partir podia ter o mesmo sentido que teve a emigração para a Europa: sair para viver um pouco melhor e assegurar um futuro diferente aos seus.

No filme também se fala numa “guerra de relações públicas” e há o caso particular dos massacres da UPA, que tiveram um efeito decisivo para justificar as incursões militares portuguesas no território a partir de 1961…
As guerras de relações públicas atravessam toda a história da fotografia. As imagens são utilizadas como instrumento político, de propaganda, documental e probatório ou de denúncia.
No caso dos massacres, mostrar em grande formato imagens tão chocantes e bárbaras, como aconteceu, por exemplo, na Sociedade de Geografia, pô-las a circular nas aldeias onde não chegavam a televisão e os jornais, criou um clima emocional propício, não só, à união dos portugueses mas, também, à mobilização imediata de milhares de soldados para o cumprimento de uma missão chamada de “policiamento do território”.
Pouco tempo depois, este unanimismo desfez-se porque os militares começaram a perceber a realidade do Império – longínquo, despovoado, desconhecido, desigual e violento – e a entender o contexto dos próprios massacres, deixando estes de aparecer como simples barbaridade pontual, inesperada e sem causas.

