Miss Marx: Susanna Nicchiarelli desafia convenções em filme biográfico vibrante e atípico

Nos cinemas a 10 de junho

(Fotos: Divulgação)

Depois de filmar “Nico, 1988“, sobre a cantora e atriz alemã que atuou com os The Velvet Underground, a cineasta italiana Susanna Nicchiarelli embarcou novamente num filme biográfico atípico, fazendo o que mais gosta, que é o mesmo que dizer “desafiar as convenções” dos biopics e “as regras normais do storytelling“.

Por isso mesmo, não estranhem o tom punk revolucionário em pleno século XIX neste seu “Miss Marx“, filme onde acompanhamos a filha mais nova de Karl Marx, Eleanor, uma fervorosa pioneira feminista às voltas com uma relação problemática com o ativista político e dramaturgo Edward Aveling.

E enquanto “Mix Marx” chega aos cinemas portugueses já no próximo dia 10 de junho, a realizadora já prepara mais um projeto biográfico, desta vez em torno de Santa Clara de Assis (1194-1253).

É o lado negro destas mulheres que me atrai“, disse-nos Susanna, numa entrevista conduzida pelo telefone onde falámos do seu filme, das suas marcas de autora, de uma visão estética vincada e um permanente interesse em contar histórias de “pessoas que sonham com um mundo melhor“.

A Susanna fez um filme em torno da Nico, agora da Eleanor Marx e no futuro tem já agendado um sobre a Santa Clara de Assis (“Chiara“). O que a atrai a este género de filmes biográficos?

No início, quando fiz o “Nico 1988“, não tinha qualquer ideia de fazer uma trilogia de filmes baseados em histórias reais de mulheres, apenas sentia-me atraída à história delas por diferentes razões. Creio que é o lado negro destas mulheres que me atrai. Há muitas coisas nelas que não compreendo inteiramente, o que leva-me a tentar descobrir mais sobre elas.

Susanna Nicchiarelli

E como é o seu processo de investigação sobre a vida delas, a recolha de material?

Fiz sempre muita investigação. Para o “Nico” andei pela Europa e falei com pessoas que a conheceram. Falei com o filho, com o agente. Para investigar a Eleanor isto era impossível, pois ninguém que a conhecia estava vivo. Mas tinha muito material sobre ela, as suas cartas e arquivos. Olhei muito para o seu estilo de escrever, o que emocionalmente foi uma experiência muito poderosa. Até o desenho que vemos no filme veio de um bloco de notas da jovem Eleanor. As suas cartas eram muito modernas, incrivelmente modernas. Usei muitas delas para os diálogos. Na verdade nunca senti uma grande distância dela.  

Para o filme da Santa Clara volta a ser diferente já que é uma história medieval. Temos material sobre ela, mas muito menos, por isso vai ficar mais para a imaginação. Mas claro, temos sempre muitas imagens e pinturas para nos guiar.

Falando de pintura, optou por basear mais o visual do “Miss Marx” em pinturas que fotografias da época, até porque as imagens femininas estavam sempre com rostos fechados….

Sim, o que era curioso na época é que grupos como os pré-Rafaelitas ou os impressionistas eram revolucionários, tal como o grupo a que a Eleanor Marx pertencia. As imagens coloridas das mulheres dentro das suas casas, com o cabelo solto são uma imagem muito viva do século XIX. Já nas fotografias a preto e branco as pessoas estão muito rígidas, pois tens de permanecer quieto muito tempo para ficar bem nelas. Essas fotos davam uma imagem mortiça do século XIX e eu precisava de imagens vívidas.

As referências da pintura estiveram sempre presentes em nós durante a construção dos dois sets de filmagens na Cinecittà. Tivemos de fazer tudo do zero, desde o papel de parede à mobília. Foi extremamente excitante essa construção. E trabalhámos constantemente com o colorista por causa da luz que vemos na pintura, de forma a funcionar também em conjunto com as fotografias (mas com vida).

E quanto à escolha musical, temos uma mistura de Punk e música clássica. Era algo que procurava, ter dois estilos distintos como uma assinatura autoral?

Acho que de alguma maneira existe uma dualidade na história da Eleanor e foi por isso que escolhi estes dois estilos musicais. Havia nela um lado romântico, mas simultaneamente um lado violento e negro. O punk é um género revolucionário, de alguma forma niilista. A morte está dentro do punk e havia um grande instinto de morte dentro da Eleanor. Existem muitas facetas nesta mulher.

A música clássica foi trabalhada na forma de readaptações juntamente com a banda com que normalmente trabalhamos. Chopin e Liszt com guitarras elétricas acho que traz uma certa ironia, pois são músicas que conhecemos, mas agora apresentadas de forma diferente. Gosto muito de fazer isso.

Trabalhou com a Trine Dyrholm no “Nico” e com a Romola Garai no “Miss Marx”. Tem um método de trabalho específico para trabalhar com as suas atrizes, ajudando-as a entrarem nas suas personagens?

O método foi muito diferente para cada uma delas, pois eram duas pessoas muito diferentes. A Trine é completamente diferente da Romola, mas claro que o que fiz com ambas foi reunir todo o material que tinha com aquile que elas também encontraram. É muito interessante ver que elas também procuraram muita informação.

Trabalhámos assim conjuntamente, mas para mim o importante é que ambas são muito inteligentes. É realmente uma jornada muito difícil trabalhar a partir de uma personagem real, existindo sempre coisas que nunca consegues compreender inteiramente sobre essas pessoas. Em ficção controlas tudo, mas quando fazes uma biografia e trabalhas a partir de pessoas reais há muita coisa que não consegues controlar pela dificuldade em perceber essas mesmas figuras. Ter uma atriz ao lado e trabalhar com ela é muito importante e normalmente chegas a uma terceira solução. É um processo muito criativo  .

Para além do interesse na figura da Eleanor Marx, já tinha anteriormente abordado o comunismo no seu filme “Cosmonauta” (2009). É um tema que lhe interessa e a fascina?

É um tema que me diz muito a mim e à minha geração. Tinha 14 anos quando o muro de Berlim caiu e vimos o mundo a mudar completamente. Sempre entendi o fascínio pelo pensamento marxista e o desejo de mudar o mundo em que vivemos, o qual é extremamente injusto. É fascinante ler histórias daqueles que acreditavam ser possível viver num mundo completamente diferente.

Claro que sei que existiram países e regimes totalitários que se proclamaram marxistas, mas o que me fascina é a pureza do pensamento de viver num mundo melhor com o fim das injustiças. Acho que isso ainda hoje é muito útil.

Como Marx diz no filme, a essência da vida está na luta, na luta por um mundo melhor. Acredito muito nisso e gosto de contar histórias sobre pessoas que lutam por melhorar o mundo.

Disse no passado que o interessante num filme era o elemento de surpresa, as particularidades e as diferenças. É isso que tenta criar no seu cinema?

Quando escrevi o “Nico”, que foi o meu primeiro guião, já que os dois filmes anteriores tinham sido escritos por outros argumentistas, disse que tinha deixar uma marca. Escrevi a história como se fossem faixas, músicas. Para o “Miss Marx” pensei no guião como quadros. Por tal, em vez de trabalhar numa estrutura tradicional, normal, gosto de dar imagens da vida de uma pessoa. Mas faço-o sempre com a ideia das pessoas gostarem, não construindo apenas as coisas de um ponto de vista inteletual.

Gosto de trabalhar nas emoções, mas também gosto da ideia de não respeitar as regras do storytelling. As regras do storytelling muitas vezes tornam tudo previsível. Gosto da ideia de fazer exatamente o oposto no cinema.

Sobre imprevisibilidade, a certo ponto da sua carreira trabalhou em animação stop-motion. Crê que um dia vai voltar à animação?

Adoraria voltar a fazer um filme em stop-motion, mas demora muito tempo e é complicado. Mas gostaria de fazer isso um dia. Sou fascinada por animais que falam. É uma das coisas que mais me faz rir e adoraria fazer um filme sobre animais que falam entre eles.

Falando agora no futuro e no filme que prepara sobre a Santa Clara de Assis, pode dizer alguma coisa sobre a abordagem que vai ter em relação a ele?

Ainda é muito cedo para falar dele, mas posso dizer que também ela era uma pessoa que lutava por um mundo melhor, muitos anos antes da Eleanor Marx.

E já tem uma atriz associada ao papel principal?

De momento, ainda não.

E depois desse filme, vê-se a sair do registo dos filmes biográficos ou vai continuar neles?

Não sei, sinceramente (risos). É muito estranha a forma como te apaixonas por uma ideia. Aposto que sabes disto, porque escreves. É algo que te interessa, atrai-te.

Tento não fazer planos até os meus filmes serem lançados, por isso é difícil dizer o que farei a seguir, até ao momento em que vês as reações da audiência ao teu filme. Aí percebes o que fizeste e o que virá a seguir.

A Susanna trabalha principalmente para o cinema. Considera trabalhar para a TV ou plataformas de streaming, por exemplo, numa série?

Bem, na verdade tenho um projeto, mas em geral não sou uma grande fã de séries. A televisão é um belo meio, toda a gente a vê e assim é interessante a ideia de chegar a mais gente, mas não sou fã de séries em geral. Prefiro sempre ver filmes. Mas claro que um dia gostaria de experimentar e como tenho um projeto, vamos ver…

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