O cinema de Safy Nebbou tem sido construído sob uma rede de identidades cruzadas e histórias mal contadas.

Com filmes embrulhados numa linguagem por vezes mais parecida com o anúncio televisivo do que aquela que ainda vamos vendo no cinema, não fugimos muito à verdade se dissermos que aqui o interesse é outro: mais preocupado em trazer para o grande ecrã temas que lhe são próximos do que em contar histórias sobre pessoas de carne e osso, há um tema tão recorrente que bem lhe pode servir de assinatura. Mas não será também isso a marca de um cineasta a seguir os seus próprios passos, na travessia desse grande deserto que é a ausência das ideias?
Em L’empreinte de l’ange, a obsessão e confusão de uma mãe em busca da identidade da filha, sob o manto de um luto mal resolvido, são os principais motivos de um enredo para lá de rebuscado; em L’autre Dumas há a questão da verdadeira autoria da criação literária com a relação entre Alexandre Dumas e o seu colaborador, o escritor Auguste Maquet, como pano de fundo; e chegados a este Clara e Claire, a sensação com que se fica é a de que tudo isto vem desaguar num remoinho com uma roupagem mais contemporânea, mas com uma desenvoltura que não vai muito além do ponto de partida. O problema, não há como negá-lo, é sempre o mesmo: tudo muito óbvio e ilustrativo.
Com Juliete Binoche em lugar de destaque, num papel em que dá corpo a uma professora universitária que se faz passar, no Facebook, por uma mulher mais jovem com o propósito de seduzir um amigo do ex-marido, Clara e Claire cruza alguns elementos do thriller com pequenos apontamentos de drama psicológico, com tempo e espaço para reviravoltas narrativas que nos obrigam a reavaliar as consequências daquelas ações – digamos, resumidamente, que o “esquema” montado pela protagonista não corre propriamente como o pretendido.
É verdade que esta abordagem aos equívocos das falsas identidades das redes sociais até pode bem servir de motivo de reflexão sobre questões com outro tipo de alcance, e nem é preciso ir muito longe para se perceber que Nebbou levanta um pouco do véu dessa febre muito actual que é a auto-representação no espaço digital. E mesmo sem o desenvolver, até dá um ar da sua graça ao colocar no centro desta encruzilhada a figura de um fotógrafo – estamos, afinal de contas, em pleno reino da imagem –, a vítima de um jogo do rato e do gato em que Nebbou centra a trama, mas é também aí que a perde manifestamente.

José Raposo

