«The Nightingale» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Que vergonha, puta, és péssima“, gritou um jornalista misógino e idiota no Festival de Veneza à realizadora no visionamento de imprensa de The Nightingale

A brutalidade do colonialismo e a hierarquia das classes dentro do Império Britânico são o foco deste Nightingale, filme da australiana Jennifer Kent que sucede o surpreendente O Senhor Babadook, e que se apresenta como uma cruzada de vingança numa Tasmânia em plena Guerra Negra das Terras de Van Diemen, conflito que gerou um verdadeiro genocídio dos nativos.

E Kent não tem qualquer pejo em apresentar a brutalidade dos tempos, iniciando a sua obra praticamente com uma violação, seguida de outra, agora com dois assassinatos à mistura. Se os tempos eram duros e violentos, naturalmente que a cineasta teria que os mostrar, mas nunca o faz de forma espampanante ou gratuita, embora numa das cenas sejamos levados até Irreversível e à famosa cena do extintor, aqui na forma de um mosquete.

Mas o grafismo não é o que salta mais à vista nesta peça de época enrugada pelas tortuosas personagens que moldaram o colonialismo na Austrália, mas sim o que é comum na obra da cineasta: a violência psicológica de personagens levadas aos extremos e a mistura do misticismo e sobrenatural em peças realistas, contando para isso com a figura de um batedor que vai ajudar a nossa Clare (Aisling Franciosi), uma vingativa mulher com voz de rouxinol, a encontrar os homens que a violaram e assassinaram marido e filho.

E essa viagem por território em guerra é repleta de tons depressivos imersos na verdejante paisagem, como que deixando um rasto de cinzentismo e cinzas que o colonialismo deixou em territórios naturais virgens. A cultura do patriarcado e a separação de classes, dentro do próprio império britânico, é também realçado, com a serva irlandesa a estar sujeita aos desígnios dos ingleses, que também os colonizaram, mas ainda assim longe da dimensão da verdadeira caça ao aborígene perpetrada nesta época de conquistas que produziu a grande maioria dos problemas e disparidades sociais até hoje. 

No final, temos uma peça invejável no retrato da bestialidade da época, daquelas que não se foca apenas no ultra realismo, mas acrescenta uma dimensão espiritual, até porque, como bem sabemos, o colonialismo ainda não acabou, em particular na mente, agora encapotado com outros cognomes, como segregação, racismo e xenofobia.

A não perder…


Jorge Pereira

 

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