Num ano em que já assistimos a biografias de Elton John (Rocketman) e de Judy Garland (Judy), eis outro biopic, desta vez centrado em Ken Miles, o piloto automobilístico e engenheiro mecânico que ganhou fama nos anos 50 e 60 nas corridas de competição automóvel.

O realizador de Ford v. Ferrari, James Mangold, não é novato no género biográfico. Afinal, uma das suas obras mais notáveis é Walk the Line (2005), o retrato de Johnny Cash que compôs com Joaquin Phoenix e que o lançou numa carreira de blockbusters que culminou com Logan (2017). Não admira, portanto, que o seu mais recente filme reúna tendências de ambos os géneros, para criar um documento biográfico com o fator-entretenimento inflacionado. Assim, embora Ford v. Ferrari não assuma totalmente a estrutura biográfica convencionada pela indústria americana (de que os dois títulos supramencionados são exemplo), este é um filme em muitos aspetos clássico. E, aqui, clássico é tanto qualidade quanto defeito.
Uma das particularidades deste biopic é que não é monopolizado pelo protagonista, interpretado por Christian Bale com uma dedicação também ela não exagerada, em virtude da espontaneidade e despretensão da atuação. Miles é recrutado pelo ex-piloto Carroll Shelby (Matt Damon a interpretar Matt Damon) para juntos fabricarem um carro que consiga destronar a gigante italiana Ferrari nas competições de velocidade, e simultaneamente revitalizar a Ford num período em que a corporação estava em risco de falência. Os dois dividem em certa medida este empreendimento: Miles assume o papel de piloto e especialista mecânico, enquanto Shelby lida com o financiamento e as exigências e condicionalismos que ele acarreta sob a forma de empresários e consultores.
Os egos masculinos em ação rapidamente chocam, e a antagonia que proporciona conflito à diegese depende sobretudo destas masculinidades em tensão entre a fragilidade, a submissão e o controlo. Há um cheiro a conservadorismo na representação de estereótipos de género que, contudo, formam um paralelo minimamente provocador com a mentalidade capitalista que é, na verdade, o motor desta história. A presença da mulher de Miles (impressionantemente retratada por Caitriona Balfe) só reforça esta propensão para uma profunda estase e resignação acerca dos papéis que cada indivíduo deve assumir numa sociedade altamente categorizada e racionalizada – não fosse ela o produto da indústria padronizada e massificada para que a própria Ford tanto contribuiu.
Mas tudo isto é pretexto para, em sequências demasiado longas e acompanhadas de uma banda sonora lastimável, assistirmos à rivalidade, dentro e fora da pista, de homens que anseiam pela velocidade, pela adrenalina e pelo título de vencedores. A segunda metade do filme centra-se na competição em Le Mans, no famoso Circuit de la Sarthe, em que, durante 24 horas, pilotos, mecânicos e industriais disputam todas as suas competências. O verdadeiro espetáculo não é tanto a corrida, senão todo o engenho, dinheiro e astúcia que a tornam possível.
Mangold ainda tenta, com os guionistas Jez Butterworth, John-Henry Butterworth e Jason Keller, introduzir um elemento emocional e empático ao realçar a relação entre Miles e o seu filho Peter, que aos 14 anos viu a paixão do pai valer-lhe a glória da vitória e, dois meses depois, a morte. Porém, como a restante estrutura do filme, este ingrediente narrativo vê-se constrangido pela fórmula clássica totalmente previsível que organiza os eventos – se bem que nos relembra que as fórmulas existem porque há nelas alguma eficácia.

Guilherme F. Alcobia

