A primeira verdadeira fenda na obra do cineasta canadiano Xavier Dolan

Aos 20 anos, Xavier Dolan iniciou a carreira na realização com uma estreia impressionante: J’Ai Tué Ma Mére (2009) foi um sucesso aos olhos da crítica e isso permitiu-lhe, desde então, prosseguir corajosamente pelo terreno cinematográfico. O seu estilo jovem, muitas vezes insolente e livre de convenções clássicas, atingiu um auge com a obra-prima Mommy, que lhe valeu o Prémio do Júri de Cannes em 2014. Porém, volvida uma década desde o seu primeiro filme, o realizador assina agora The Death and Life of John F. Donovan, uma obra desconcertante numa filmografia até agora admirável.
O filme abre com uma citação de Henry David Thoreau – escritor norte-americano do século XIX que tem recentemente vindo a ser recuperado pelo movimento minimalista –, que lê «Rather than love, than money, than fame, give me the truth». Escolha irónica, por um lado, por abrir um filme que nada de genuíno e honesto apresenta, repleto que está de personagens e situações caricaturais; e escolha arrogante, por outro, por sugerir uma reflexão séria sobre Temas Importantes®️ que, contudo, como na frase descontextualizada, são perfunctoriamente tratados.
O enredo é então contado na perspetiva de Rupert Turner, um jovem ator que, na infância, havia estado no centro de uma polémica com a estrela de cinema que dá título ao filme. Como ávido fã, Rupert escreveu uma carta ao ídolo, que, para seu espanto, lhe respondeu por escrito e com ele encetou, durante anos, uma constante correspondência. O rapaz é agora editor de um livro que compila as cartas partilhadas entre ele e Donovan, a propósito do qual dá uma entrevista que serve como mecanismo narratológico para podermos acompanhar, em flashback, esta inusitada amizade entre uma criança e a estrela que aspira a ser.
Este mecanismo é, contudo, levianamente proposto, pois cedo o filme invade a vida íntima de Donovan que, se Rupert, enquanto criança, não podia conhecer, apenas pôde imaginar anos mais tarde. Tal significa que aquilo que o filme dá a conhecer da vida de Donovan só pode ser uma de duas coisas: ou incoerente com o ponto de vista do narrador, ou falso porque conjeturado por esse mesmo narrador.

De resto, para um filme que se propõe a refletir sobre a transparência das figuras públicas, a escolha do ponto de vista do fã parece algo insólita. Na verdade, o filme é um aglomerado de confusões, imprecisões e inconsistências que se revelam em primeiro plano na forma como o argumento confunde a noção de artista com a de celebridade. Conceber como indistintas estas duas figuras é provar o quão pobres e frívolas as considerações desta obra são.
Infelizmente, o argumento não faz justiça a uma história que é até original e que, nos seus traços mais gerais, poderia dar aso a reflexões provocadoras sobre questões tão atuais como a privacidade, a celebridade e a idolatria. Mas Dolan parece mais ocupado na estilização audiovisual da história do que no próprio conteúdo, o que é tanto pior por, neste filme, exercitar ao máximo o lado melodramático da sua realização. Os movimentos de câmara bruscos, o excesso de grandes planos, os cortes dramáticos, a ópera de músicas pop, o exorbitante design sonoro de sons extra-diegéticos, os discursos inflamados, o guarda-roupa dos anos 80 apesar do grosso do filme se passar em 2006, a montagem dispersa e pontuada de sequências musicais… Todos estes elementos fazem escalar o puro sentimentalismo – sentimentalismo esse que, aliás, não pertence a uma narrativa que vê no artista deprimido e martirizado um fetiche.
Ainda assim, o cúmulo do melodrama deve-se às atuações centrais que, desde Natalie Portman ao insuportável Jacob Tremblay (que tanto nos espantou em Room), encapsulam perfeitamente o quão gritante e teatral é The Death and Life of John F. Donovan. O único elemento do elenco que consegue trazer alguma subtileza a esta épica tempestade de exclamações é Kathy Bates no papel de manager de Donovan, que interpreta uma das poucas cenas credíveis do filme.
Excluindo, portanto, meia dúzia de elementos e momentos que fogem à regra e revelam alguma autenticidade, a mais recente obra de Dolan não consegue, como tão bem o fizeram vários dos seus filmes anteriores, conjugar o artificialismo estilizado da forma com o conteúdo da narrativa, precisamente porque este último está vazio de densidade e sinceridade intelectuais e emocionais.

Guilherme F. Alcobia

