Os filmes da seção Heart Beat são aqueles que escapam à uma programação mortalmente séria e dedicada a experimentalismos para figurar numa espécie de margem do desprezado “feel good movie”. The Cavern Club: The Beat Goes On surge acessível como uma canção dos “fab four“.

Apesar do Cavern Club surgir no final do filme na sua versão século XXI, colorido e “limpinho”, e terminar com uma apresentação de Adele pouco antes da fama, é na sua história inicial que está o glamour, a poesia e, principalmente, o interesse. O certo é que, excetuando o caso dos Beatles e de algumas bandas que conseguiram hits“internacionais, como os Gerry & The Peacemakers, a maior parte da importância do clube em termos musicais é local; mais tarde virou um grande negócio de turismo baseado no famoso quarteto.
Tudo surge após a destruição do projeto baseado no imaginário de Alan Sytner, que encantado com as caves que encontrou nos meses que viveu em Paris, quis fundar uma igual na feia Liverpool. E assim surgiu o Cavern: húmido, bolorento, irrespirável. Nesta altura (1957), os demonizados rockers apenas conseguem infiltrar-se como ratos a partir de uma abertura para sessões na hora do almoço (!) – direcionadas aos administrativos e estudantes que circulavam pelas redondezas.
E foi assim que a cidade portuária entrou em sintonia com a eclosão da cultura de juventude que se dava na América – neste caso vindo do “skiffle“, por sua vez uma versão dos jovens britânicos tão pobres quanto os homens que criaram o “blues“. No “skiffle“, até vassouras viravam guitarras!. Mas ritmo não faltava e, como diz um testemunho, Lonnie Donagan foi o “Elvis Presley” a incendiar o cenário de Liverpool.
O propósito de mostrar outras histórias para além dos Beatles tem a consequência, ironicamente, de tornar ainda mais especiais as aparições do mítico grupo de John Lennon e Paul McCartney; este último, aliás, deu valiosos depoimentos em “off” e foi objeto de outras histórias. Num deles, a filha de um dos antigos proprietários do Cavern conta como McCartney apareceu um dia do nada. Já casado com Linda Eastmann, esta tirou fotos com os donos – para a consternação do proprietário (provavelmente injusta!) que via Linda supostamente “escangalhar” a sua máquina fotográfica! Quem também teve sorte foi um cinegrafista da TV Granada, ainda vivo para rememorar como fez as primeiras imagens (e as únicas no Cavern) existentes dos Beatles.
Narrado pelo ator Paul McGann e com notório esforço de pesquisa, o filme cumpre os objetivos de mostrar como um local simbolizou um belo momento histórico, passou pelas peripécias financeiras inerentes aos clubes e, típico do século XXI, agora vive da herança numa época esmagada pelo peso do passado.

Roni Nunes

