«Zombieland: Double Tap» (Zombieland: Tiro Duplo) por Guilherme F. Alcobia

(Fotos: Divulgação)

Passaram-se 10 anos desde que visitámos pela primeira vez Zombieland, mas as personagens que habitam este mundo e as mentes criativas que o concebem ficaram completamente retidas em 2009.

Talvez o aspeto mais inesperado desta inevitável, mas dispensável, sequela seja o quão semelhante é relativamente ao filme original. Não só em termos estéticos como diegéticos, Zombieland: Double Tap desenrola-se como um perfeito contínuo do primeiro filme, sem introduzir novos elementos quer na fotografia, no «worldbuilding», quer na dinâmica das personagens e naquilo que as move. Apesar de ser claro o avanço do tempo – principalmente porque a personagem de Abigail Breslin, Little Rock, saltou da pré-adolescência para a idade adulta –, o espetador é convidado a experienciar o filme como se praticamente nada tivesse ocorrido ao longo desta década.

Tal prova ser, mais do que uma desilusão, uma oportunidade inteiramente desperdiçada para renovar e dinamizar este universo de mortos-vivos. A única novidade significativa incorporada na narrativa é o advento de uma espécie de zombies evoluída (denominados T-800, numa alusão ao Exterminador Implacável) que, contudo, não estabelece uma verdadeira tensão dramática, pois as criaturas tornam-se meramente mais difíceis de destruir. Há, globalmente, uma total aversão ao risco por parte dos produtores, que preferem repetir uma fórmula já testada: sequências inteiras são simétricas ao primeiro filme, transferindo-se de um parque de diversões para uma comuna chamada Babylon, para nem mencionar que o motor da história é o mesmo, a busca por um elemento desertor do grupo.

A inclusão de algumas micro personagens – Rosario Dawson como interesse amoroso e heroína; Luke Wilson e Thomas Middleditch como sósias cómicas do duo Woody Harrelson/Jesse Eisenberg – são obrigatórias para propulsar a ação, embora não tragam nenhum peso concreto à obra. Apenas a personagem de Zoey Deutch, Madison, consegue ser relevante na dinâmica do enredo e manter um contributo humorístico consistente. Juntamente com Tallahassee, o implacável cowboy de Woody Harrelson, estas duas personagens são as únicas a concretizar o lado cómico do filme (descontando o cameo enlouquecido de Bill Murray).

Infelizmente, o lado dramático da ação é nauseante pela forma como é escrito: as conveniências narrativas retiram todo o sentido de aventura ao filme (como encontrar Babylon?) e o desinteresse pela evolução das personagens cumula numa cena final que é risível, contrariamente ao que seria a intenção do realizador, Ruben Fleischer. Tal como os seus guionistas, Rhett Reese e Paul Wernick, a quem se junta Dave Callaham, o realizador não aparenta ter interesse em explorar um mundo invadido por zombies, ou pelo menos em parodiar provocadoramente esse cenário. Como resultado, Zombieland: Double Tap consolida-se como mais uma produção norte-americana cuja existência se justifica apenas e tão-só pelo lucro comercial que gerará.

Guilherme F. Alcobia

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