«Wounds» por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Há uma linha ténue no “não fazer sentido” que pode separar o fascinante do absurdo; Wounds rasga-a sem qualquer preconceito e receio de sair mal na fotografia. Esse é o maior choque que tem para nos oferecer.  


O realizador Babak Anvari contou ao c7nema que a sua maior inspiração foi David Cronenberg, o cineasta canadiano popularizado por tratar a carne humana como uma entidade dotada de vontade própria, uma extensão de inúmeras possibilidades narrativas. Chegados ao plano final ridículo de Wounds, entendemos a referência. Mas é preciso mais que abrir a carne e inundar o espaço de baratas voadoras. 

Durante uma longa cena de abertura num bar, que serve basicamente para introduzir todo o lote de personagens exceto uma, estamos crentes que este será um filme com um propósito. Até um telemóvel perdido ser a base de uma das tramas mais estapafúrdias que há memória recente, que parece querer vir beber, não só da possessão da carne humana Cronenberguiana, mas de possessões espirituais que usam a tecnologia para controlo da mente (sim, aqui há também o “pai” Videodrome mas pensamos mais no horror oriental de Ringu e respetiva descendência).

Armie Hammer (Call Me By Your Name) é o protagonista inesperado desta película e, em boa verdade, a sua presença tenta conferir uma credibilidade que o filme insiste a todo o momento minar; é uma performance ingrata e convenhamos que já vimos desculpas bem melhores para o ver tirar a camisola ao longo da sua carreira…  

Na linha nonsense que o terror até pode reinvindicar como sendo peça chave para gerar arrepios – afinal de contas, o que é pior para os nossos medos? Saber tudo o que se passa à nossa volta, ou não saber de todo o que se está a passar? – Wounds falha memoravelmente em produzir alguma sensação que soe a medo do desconhecido, que deveria ser o seu objetivo principal. E mesmo que não fosse esse o seu objetivo, isto é, mesmo que o filme quisesse enveredar por um género mais dramático, ou por uma metáfora sobre como o alcoolismo nos consome por dentro, e nos deixa vulneráveis para deixar entrar os vermes, ou algo nesta vizinhança, Babak Anvari não mostra grandes sinais de o mostrar, fora uma deixa (mal) proferida pela personagem de Dakota Johnson sobre as pessoas por dentro estarem cheias de vermes. Uma valente desilusão.   

 

André Gonçalves

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