In The Tall Grass pode ser visto na Netflix

A surfar a onda de popularidade, má fama e sucesso há mais de duas décadas (quem não?), Vincenzo “realizador-do-Cubo” Natali tem construído a carreira partindo de uma bem estudada lição do cinema de género: firmemente fixados no cinema de horror, os seus filmes procuram retratar a traços largos a complexidade moral do ser humano. Sem a obsessão desmesurada de um Paul W.S. Anderson por uma mise-en-scène que transforma os filmes em pequenas peças de xadrez, o seu cinema não deixa de denunciar um certo prazer pela “orquestração” à pequena escala, reduzindo ao máximo e em termos muito literais o espaço dramático em que encerra os seus personagens, frequentemente enclausurados em lugares labirínticos, indescritíveis, e indecifráveis.
Esta adaptação, de uma novela escrita em colaboração pelo omnipresente Stephen King com o filho Joe Hill, dá continuidade aos principais interesses de Natali. Sem surpresa, a premissa deste In The Tall Grass é puro King: a meio de uma longa viagem de carro pela estrada fora, uma casal de irmãos ouve aquilo que parece ser o choro de um bebé perdido num campo de milho. Vão em seu socorro, como quem vai ao encontro da sua desgraça e é aí que Natali encontra o seu filme: perdidos e “vítimas” dos desígnios de uma força natural, os dois irmãos procuram desenvencilhar-se do labirinto em que subitamente se vêm cercados. E é claro que toda esta asfixia narrativa e figurativa – o campo de milho é realmente um labirinto que perturba a ordem racional do espaço-tempo, num exercício que tem muito mais interesse num dispositivo narrativo do que propriamente cinematográfico – serve de espelho ao grande drama que assola Becky DeMuth (Laysla De Oliveira), peça fundamental deste puzzle, uma jovem a viver os últimos estágios de uma gravidez de um relacionamento que não correu propriamente bem.
É verdade que o filme até acaba por se desenvencilhar com alguma desenvoltura das suas próprias limitações – convenhamos que por mais peripécia e artimanha narrativa, um campo de milho cravado em lama é um campo de milho cravado em lama, e ninguém devia ter tempo para se demorar mais de hora e meia num pastel destes – mas isso não torna esta adaptação num filme “redentor”. Resulta melhor quando aparece um Patrick Wilson em cena, uma das muitas personagens que se vão assomando no meio daquele caos labiríntico e que dão alguma cor à monotonia narrativa, num registo performativo que carrega a alucinação de um medo muito frio e suado, e que não calha nada mal no meio de tanta banalidade.

José Raposo

