Um decente, se ultimamente supérfluo, apêndice a uma das séries mais marcantes do nosso tempo.

O conceito de spin off é praticamente tão antigo como a massificação dos media. Uma porta fecha-se, mas isso não significa que tudo esteja por contar, sobretudo quando há personagens tão interessantes como o protagonista que peçam para ser mais explorados. Claro, não nos enganemos, há sempre uma lógica mercantilista presente, daí que seja precisamente a popularização do objeto cultural que tenha originado esta oferta particular.
No caso de Breaking Bad, uma das séries mais amadas (e referenciadas) do nosso tempo, El Camino é já a segunda derivação. Se em Better Call Saul, a narrativa pendia mais para o estereótipo do que representa este conceito (i.e. pegar numa personagem secundária marcante e transformar em protagonista), em El Camino temos o que se pode considerar um epílogo de duas horas, sobre a personagem que representava metade da fórmula de sucesso da série: Jesse Pinkman.
Se Walter White, na sua transformação de pessoa pacata a anti-herói sem escrúpulos concentrava a maior parte das atenções, Pinkman reunia também as suas ambiguidades, sem nunca ter perdido a sua humanidade mesmo nas alturas mais trágicas do enredo. Mas talvez a maior ambiguidade tinha sido deixada naquele final, onde se priorizou a queda de White, deixando a página em aberto para este jovem recém-livre. Seis anos volvidos sobre o ponto final, sob a alçada novamente do criador da série, Vince Gilligan, e reunindo de uma forma impressionante o elenco original, o espectador tem aqui um final também para esta personagem.
Breaking Bad podia-se orgulhar de ser mais cinema que muita obra em cartaz nos cinemas (icónico o plano sucessivo em que a câmara acompanhava o objeto que as personagens fixavam), e esse espírito é felizmente transposto para este “filho”, com planos mais vincados e chamativos que nunca, combatendo o rótulo de “telefilme”, e fazendo crer que o ecrã da televisão, por muito grande que seja, não é o suficiente. Estamos definitivamente de regresso a uma linguagem particular de fazer televisão que fez escola, em termos de realização.
Depois, é tão bom rever Aaron Paul neste papel, que lhe valeu merecidamente três Emmy. Se havia dúvidas que o ator conseguiria segurar às costas uma obra, estão oficialmente dizimadas, “bitches” – o tempo para a personagem e ator parece não ter passado, o que confere uma sensação de estarmos a assistir a uma obra filmada até com pedaços que tinham sido originalmente gravados para a série, mas postos de parte.
O que nos conduz ao mais negativo aqui: o factor relevância. É esta obra ultimamente necessária/que valor acrescentado (na ótica artística) temos aqui?

Sim, El Camino é um sólido serviço de fãs, sim senhor. Mas é também uma película que, fora a excelência atrás das câmaras, da direção de atores, e da introdução de cameos preciosos (easter eggs) que assaltam as nossas emoções conquistadas ao longo de cinco temporadas, tem ainda assim alguma dificuldade em justificar a sua validade enquanto obra isolada, sem estar sempre a apelar à memória do espectador. E nesse aspecto é mais uma sequela típica que um spin off autocontido, pois necessita obrigatoriamente do visionamento prévio da obra-mãe, ou do “livrinho amarelo” de resumo que a Netflix disponibiliza. O novo argumento, composto por peças convenientemente nunca antes vistas, que culmina num confronto neowestern, parece saído de uma ficção de fãs ou então de uma reunião rápida de ideias para injetar mais ação e explosões.
Estamos de facto mais enriquecidos em saber o destino final de Jesse Pinkman? Nem por isso. Nada bate a ambiguidade e a imaginação coletiva. Mas não se pode negar o trabalho eficiente de Gilligan em querer dar um fecho à outra metade esquecida da sua fórmula de sucesso, mesmo que sim, seja uma eficiência supérflua.

André Gonçalves

