Violência, demonologia e extrema solidão combinam-se num “western” que traz um “timing” cadenciado e um equilíbrio perfeito entre terrores psicológicos e sobrenaturais

O filme abre com um “travelling” invertido a partir de uma porta para apresentar em triângulo três dos quatro protagonistas. No meio destaca-se a mulher, exibindo mais sangue do que habitual no cenário de western que o filme passará a explorar. Lizzy (Caitlin Gerard) vive com o marido (Ashley Zukerman) na extrema solidão de um lugar remoto, ficando compreensivelmente feliz quando uma casa abandonada lá perto passa a ser habitada por outro jovem casal – Emma Harper (Julia Goldani Telles e Gideon Harper (Dylan McTee). As duas mulheres vão passar a experimentar fenómenos cada vez mais perturbadores, ora associados ao local (“esse lugar prega partidas na tua mente”, diz Emma), ora a demónios que supostamente o habitam.
A cineasta Emma Tammi traz em The Wind alguns caminhos muitas vezes trilhado pelo terror psicológico, como o jogo entre o real e imaginário (o título refere-se à atribuição ao “vento” para sons inexplicáveis), e temas recorrentes, como a questão da maternidade (Mama e Babadook, por exemplo) que acaba por ser crucial para o desenlace. A variar a fórmula surgem alguns signos do Velho Oeste (das armas de dois canos à paisagem, ainda que a direção de arte esmere-se demasiado na limpeza de um casa rural do século XIX!) e mais algumas especificidades.
Uma delas é o jogo que surge entre as duas mulheres e envolve delírio, inveja, ciúmes e uma heroína não particularmente marcada pela submissão típica da ordem patriarcal destes tempos (Lizzy se defende com uma arma tanto dos lobos quanto dos “espíritos malignos”) – reservando ainda para um final um sólido “twist“.
Não só mais limpo e comedido, este cenário abriga também uma literacia acima da média, onde as protagonistas liam clássicos da literatura gótica. Um deles, Os Mistérios de Udolpho, de Ann Radcliffe, serve de referência para a “gothic female” onde uma tenaz heroína, embora bem mais frágil do que a protagonista de The Wind, anda às voltas com fantasmas que vão dar ao famoso “sobrenatural explicado” de Radcliffe. A leitura de trechos incomoda Lizzy, que merece um curioso comentário de Emma, supostamente a mais perturbada das duas mulheres: “são apenas personagens de uma história!“.
Já a leitura de um trecho pungente de Frankenstein“, de Mary Shelley (“Não seremos felizes, seremos monstros, mas inofensivos e sem a miséria que eu agora sinto”), refere-se a outro problema, para além de anunciar reviravoltas futuras: o da extrema solidão das personagens, aqui refletidas a partir do trecho onde a Criatura, no livro, demandava por uma noiva. Mais sinistro é o livreto Os Demónios da Pradaria, que vai surgindo aqui e ali na história, onde listam-se os mais horrendos demónios que parecem espalhar-se pelo lugar.
Embora peque pelos excessos de flashbacks como recurso narrativo, Tammi faz um filme tenso e sem falhas de maior, apostando certeiramente as suas fichas na intérprete principal, no argumento bem escrito (de uma novata, Teresa Sutherland), e envolvendo em si uma diversidade de temas.

Roni Nunes

