Apetece perguntar para o céu: será Ari Aster o cineasta mais perfecionista do momento?

Para uns, tal perfecionismo repleto de planos a chamar a atenção para a sua técnica incomodará, fará comichão, fará perguntar “quem é que este pensa que é?”… Para outros, teremos um novo génio coroado, com poder de decisão mais vincado.
Depois de Midsommar, uma coisa é certa: o realizador e argumentista, que confessou numa sessão de perguntas e respostas do MOTEL/X que nunca conseguiria entrar para um local de rodagens de improviso, entra para cada projeto como se fosse iniciar uma tese de doutoramento, tão minuciosa se revela a pesquisa, como minuciosa é a sua execução na (re)construção do espaço que vai usar e das pistas que vai deixando como ovos da páscoa aos seus cada vez mais numerosos seguidores.
Uma regra de ouro nesta sétima arte é “mostrar, não contar”. Pois, Aster não só mostra mais do que conta, como oferece o que vai acontecer a seguir de bandeja, via outras artes. Depois das miniaturas de Hereditary, segue-se em Midsommar uma sequência de obras artísticas a servirem de prenúncio aos eventos que visionaremos minutos mais tarde. Esta série de dicas em modo “spoiler” acaba até por ir de encontro à génese do que constitui o terror: a ausência de escape, esta inevitabilidade trágica que encerra as suas personagens.

Depois da mitologia grega sublinhada na sua primeira obra, subimos um pouco na geografia para a Suécia – para o tal ritual, “inspirado em factos verídicos”, que é a festividade do solstício de verão, de génese pagã. A desculpa para um grupo de norte-americanos visitar tal festa prende-se com uma tese de doutoramento de um deles em antropologia, mas o centro acaba por recair num casal, que já não consegue comunicar. Podemos estabelecer este como o tema principal explorado aqui: a comunicação humana. Não aparenta ser um acidente para uma pessoa tão controladora como o cineasta que abra o filme precisamente com duas formas mais usadas de comunicação na nossa sociedade atual (e-mail e telefone, sendo o barulho do último causa do primeiro momento desconcertante de muitos… ) – ambas falhando a evitar uma tragédia, que é o ponto de trauma de partida, e que vai despoletar, juntamente com a relação do casal em crise, toda a sequência de eventos a culminar no final mais emblemático do ano, gerador de discussões sem fim em sites como reedit.
A certo ponto, a assinalar a entrada dos protagonistas neste novo mundo, a câmara dá uma volta de 180 graus. Truque fácil de menino mimado a pedir atenção? Olhe-se mais atentamente: Aster está aqui a anunciar que vamos entrar num sítio onde a comunicação será exatamente oposta à que estamos habituados a ter; onde no limite, pelo poder de uma droga desinibidora, poderemos finalmente perceber outra linguagem, onde a empatia pode ser demonstrada através da dança e de um canto de sereia (mas um canto desconfortável, fora do nosso alcance) em sintonia quer na dor quer no prazer. O que a protagonista, na figura da formidável Florence Pugh (e que pena que o preconceito sobre o cinema de género mine o caminho de premiações a performances como esta!), encontra é ultimamente uma redenção macabra, ambígua. A sua ansiedade palpável atinge um pico orgásmico, onde cabe toda a catarse pontuada com uma banda sonora pungente de Bobby Krlic (The Haxan Cloak), uma gama de emoções capaz de deixar até o espectador mais versado estupidificado, e com o filme a germinar na cabeça durante dias.
Ari Aster, pegando novamente em referências mais ou menos óbvias (Jodorowsky, The Wicker Man) assinou um filme paradoxal: ora mais expansivo que o filme anterior, ora mais controlado que nunca no seu perfecionismo. Ame-se ou odeie-se, não se verá outro filme assim este ano.

André Gonçalves

