«Finale» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Finale não é particularmente original – nem nos temas, nem naquilo que mostra – mas é pertinente e satisfatoriamente terrorífico

Com um misto de ironia e declaração de intenções, o filme inicia apropriando-se do preâmbulo no clássico Frankenstein, para que o realizador Søren Juul Petersen substitua Carl Laemme para enviar um “aviso amigável” ao seu público, dizendo o que vai assistir pode horroriza-lo e choca-lo. Enquanto no clássico da Universal a audiência era abandonada a uma história de castelos góticos, laboratórios expressionistas e apaixonados cientistas, nesta era pós-Martyrs o terror vem do sadismo, do claustro e de um jogo onde toda a moralidade cede ao usufruto “voyeurístico” de uma insensibilidade psicopata.

O filme de Pascal Laugier virá por vezes à mente, mas a proposta é outra: Agnes Berger (Anne Bergfeld) e Belinda Andersen (Karin Michelsen) são duas empáticas empregadas de uma bomba de gasolina numa noite que se advinha particularmente entediante. Excetuando alguns clientes desagradáveis, nada advinha a dimensão do que estará por vir.

Com divisões em capítulos que remetem às origens gregas dos espetáculos, desde cedo Petersen usa essas noções interligadas às possibilidades do mundo contemporâneo com a sua omnipresença de câmeras (no estabelecimento, por exemplo) que, como anunciará mais tarde o Ringmaster (Damon Younger), graças à internet o mundo todo pode estar ligado aos teatros mais medonhos. O filme explora por vários momentos esse conceito: num diálogo, Anne disse à colega que “você não deveria ver filmes de ‘serial killers’ pois o medo distorce a realidade“.

De resto, há uma ideia que, para ficar por esta edição do Motelx, também se encontra em Bacurau – a do “snuff movie” que aqui não só é vendido para os clientes de “primeira classe” que acompanham o evento “in loco” como transmitido para uma vasta rede de “voyeurs” ao redor do mundo. Petersen emoldura um mundo todo ele baseado na noção de entretenimento e espionagem: a bomba de gasolina está as moscas porque a Dinamarca chegou a uma final qualquer desportiva, assim com o último plano do filme (uma câmara presente no alto de um poste) demonstra que qualquer pessoa pode ser a próxima vítima.

As personagens principais são credíveis e bem interpretadas, como de resto todo o elenco e, embora o filme não traga nada de novo nem nos temas (questionar o espetáculo violento através de imagens extremas já era a ideia central do longínquo Holocausto Canibal, por exemplo) nem na forma – facilmente associáveis aos “torture porn” e as “experiências” dentro da “new french extremity”. Apesar disto, é um filme pertinente e satisfatoriamente terrorífico.


Roni Nunes

Últimas