«Lord of Chaos» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Um filme tão trágico quanto divertido, onde o realizador Jonas Akerlund acha frequentemente o equilíbrio preciso entre drama, humor e “gore” para retratar a incrível história do grupo de “black metal” Mayhem.

Quando uma “biopic” relativamente fiel aos factos vai parar a um festival de cinema de terror, isto só pode ser uma demonstração de que a história dos biografados é, no mínimo, sensacional. Na verdade trata-se da fascinantemente trágica história dos Mayhem, auto-intitulados inventores da “black metal” norueguesa, banda que conseguiu cruzar os fiordes no início dos anos 90 e inscrever o grupo (e o rótulo) no cenário internacional.

Mas, para muito além das projeções “marketeiras” do seu mentor Oystein Aarseth (conhecido como Euronymus e interpretado por Rory Culkin), os acontecimentos relativos a alguns dos seus membros ganharam mais notoriedade do que a importância musical do grupo – esta estabelecida como a segunda leva de um subgénero batizado pelos Venom no seu álbum “Black Metal” (1982) – banda, aliás, que alguém no filme aproveita para chamar venenosamente de “poser”!

Com a epígrafe “baseado em verdades, mentiras e naquilo que realmente aconteceu”, o filme apresenta a história do grupo narrada na primeira pessoa por Euronymus – na verdade uma reconstituição obtida através de uma reconstituição baseada num livro escrito sobre eles de autoria de Michael Moynihan e Didrik Soderlind.

Uma das marcas do protagonista e que conduz a um dos temas de “Lords of Chaos” (a dessacralização do mito do artista) é a sua capacidade inata para a autopromoção, para o empreendedorismo e o faro para o negócio – o que provocará uma divergência fatal (literalmente) entre ele e o seu fanático seguidor Varg Vikernes (vivido por Emory Cohen). Não que Euronymus não tenha tanto de agilidade comercial quanto de uma incrível insensibilidade e um pendor quase psicopata pelo mórbido e pela maldade: o baixista Necrobutcher, que hoje em dia gere os destinos dos Mayhem, abandonou a banda quando da morte do cantor do grupo após um fascinado Oystein Aarseth decidir tirar fotos pormenorizadas do suicida com os miolos espalhadas pelo chão…

E se o assunto é fascínio mórbido ninguém a bate o que gira a volta de Per Yngve Ohlin (o Dead, vivido por Jack Kilmer), um depressivo e introspetivo sueco que respondeu ao anúncio de jornal à procura de um cantor enviando um pássaro morto com a carta. Aparentemente, Dead teve uma infância trágica e se converteu num adulto que leva a obsessão pela morte a patamares inacreditáveis. Ou, como se disse, era como se ele já estivesse morto…

Já quanto ao retrato de um artista enquanto parvo, Varg Vikernes poderia figurar em alguma “comedy horror” de Roger Corman (A Bucket of Blood, por exemplo) ao relembrar que, para cada profeta de fundo de quintal, há um fiel fanático correspondente. Vernes não está a brincar, o que mete Euronymus em sérios problemas para manter a sua liderança quando o primeiro, na altura músico dos Borzum, passa a protagonizar um incendiário movimento de queima de igrejas que assolou a “a cinzenta, chata e líder em suicídios” Noruega no início dos anos 90.

Vikernes amargou 18 anos na prisão pelos acontecimentos relatados no filme e depois de sair, enquanto neonazi nos termos da afinidade com o paganismo étnico-racista do estilo do arianismo de Hitler, já andou por aí a arranjar problemas. Aliás, é hilariante a cena do filme onde ele explica o seu “pensamento” a um jornalista, que troça da sua mixórdia mental dizendo: “Então você acredita em paganismo e você é satanista e também nazi… Esse é um sistema de crenças bastante amplo!

Jonas Akerlund é um famoso realizador de videoclips, cuja fama e fortuna (trabalhos para Madonna e Beyoncé, entre outros do género) vem de mundos bem distantes do universo que retrata. Para salvar a sua reputação em lidar com semelhante matéria, no entanto, abona a seu favor o facto de ter sido, no seu país (Suécia), baterista da banda de “black metal” Bathory, entre 1983 e 1984. Mais importante é que a experiência de Akerlund permitiu encontrar com bastante frequência um equilíbrio entre o humor, o drama e pelo menos um impressionante momento gore – para além das salutares e longas sequências de esfaqueamentos fazerem inveja a qualquer giallo. E que a comédia meta-se não é leviandade: a história dos Mayhem sempre teve algo de uma comicidade surreal.

Roni Nunes

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