Culpa e redenção em foco neste All the Gods in the Sky (Tous les dieux du ciel)

Simon (Jean-Luc Couchard) vive uma existência precária: trabalha numa fábrica, onde não é bem visto, e habita uma quinta em ruínas – onde dedica-se com zelo a cuidar da irmã inválida (Melanie Gaydos). Ao mesmo tempo frequenta de forma intermitente o consultório de um psiquiatra enquanto é investigado pelos serviços sociais que à partida lhe podem retirar a irmã. A abertura do filme, onde revela-se a causa dos tormentos que guiarão o percurso de Simon, é particularmente chocante.
Numa das camadas do filme o cineasta estreante Quarxx propõe uma provocação nos velhos moldes à sensibilidade pequeno-burguesa através da exposição de um corpo deformado – que tanto dá para emoldurar um “statement” a favor da aceitação do diferente quanto para desafiar a tolerância do espectador – já que a protagonista não surge no ecrã por qualquer recurso de maquiagem mas é antes vivida pela atriz e modelo “underground” Melanie Gaydos – que no mundo real sofre de uma doença chamada displasia ectodérmica. Esta impede que dentes, unhas, poros, cartilagens e ossos se desenvolvam.
O horror à deformidade gerou todo o tipo de fantasias (entre os óbvios paralelos do filme estão David Cronenberg e David Lynch), mas raramente com intérpretes genuínos: nos longínquos anos 30 um bem-intencionado Tod Browning descobriu sem querer, com consequências que lhe custaram a carreira, que pouco pode perturbar mais do que o confronto da perspetiva “normal” com a deformidade física “real”. Aqui, o diligente e muito pouco machista Simon, numa sequência de impacte, contrata um gigolô para providenciar outros tipos de prazer à sua trágica familiar…
Mais complexa que a parábola “feios por fora, bonitos por dentro” de Freaks, no entanto, All the Gods in the Sky é também uma obra sobre culpa e redenção. O filme centra-se no mundo mental de Simon, onde os agentes externos banais do quotidiano (o psiquiatra, o chefe, a agente social) começam a tornar-se ameaçadores e causam-lhe reações cada vez mais agressivas (no momento mais brutal do filme ele esmigalha o rosto de uma mulher e atira seu corpo nu aos porcos!).
Numa trajetória cada vez mais alucinada, a sua degeneração psíquica cruza-se com momentos de “body horror” (Simon expele sangue através do pénis numa banheira), delírio esquizofrénico auditivo (as sinistras vozes do rádio que ele interpreta como sendo comunicação alienígena), visual (os “extraterrestres” ganham uma corporificação sinistra) e onde sobre tudo isso pairam imagens de um apocalipse eminente. Culpa, desintegração e busca de redenção extremas só podem encontrar dois destinos muito diferentes: a religião ou a morte.

Roni Nunes

