«Ma» por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Um Tate Taylor finalmente mais relaxado no cinema de género e uma Octavia Spencer finalmente a assumir (maior) protagonismo são os grandes trunfos de uma história clássica com alguns buracos lógicos visíveis…  

Não me deixem beber sozinha“. No contexto em que estas palavras são proferidas, é normal que se ignore o sofrimento profundo que pode desencandear a solidão provocada por um trauma do passado. Aqui, o foco está na narrativa de A a B ao invés da psicologia da quase protagonista que recebe pelo menos aqui o título do filme, e sob a qual a frase acima serve para colorir superficialmente o retrato. Por outras palavras, Ma está preocupado com uma agenda mais simples: entretenimento autoconsciente para as massas – ou não fosse ter as mãos do produtor Jason Blum – o que o torna uma escolha minimamente acertada para abrir esta edição do Motelx, pois nesse aspecto sucede por completo. Por isso, tragam as pipocas para a sala, e preparem-se para uma película que sabe pelo menos o que vale e do que não vale, e que sabe exatamente onde parar, mesmo quando a personagem titular aparenta não saber… 

Se o espectador ceder e parar de pensar no que poderia ser um estudo de personagem mais alternativo, encontra aqui mais uma boa adição ao género “mulheres abandonadas que se fartaram de ser ignoradas, e se viram para a violência” (Atração Fatal et al), aqui com um pequeno twist – não se guarda grande memória de termos uma mulher negra a preencher este espaço de trauma convertido em doença mental a ser por sua vez encarado como pura vilania. Sobre isto, uma nota: o argumentista Scotty Landes opta por nos mostrar via flashbacks como Sue Ann/Ma, uma auxiliar de veterinária, chegou a este ponto, numa tentativa de humanizá-la e justificar o seu interesse cada vez mais intenso por um grupo de jovens adolescentes. Estes conseguem até evitar que torçamos contra eles – o nível de irritação por estas personagens está aqui em níveis aceitáveis, embora “Ma” merecesse sempre mais destaque que eles.   

Quanto a Tate Taylor, realizador por trás de obras como The Help e Girl on the Train, finalmente relaxa um pouco aqui, não deixando ainda assim de revelar aqui uns planos mais exibicionistas que podem até repensar a noção que tínhamos dele como mero tarefeiro. Mas para a posterioridade ficará mesmo o retrato de Octavia Spencer, que finalmente consegue-se livrar do estereótipo de atriz secundária que lhe valeu três nomeações ao Oscar e uma vitória, num cocktail tragicómico que tenta ir à psique da personagem, e sucede, mesmo quando o filme se reduz ao mínimo denominador comum do género. Ma não é tão bom como poderia e deveria ser, mas é suficientemente bom (e eficaz, i.e. direto ao assunto) para se perdoar alguns lapsos lógicos e a previsibilidade relativa dos procedimentos. 

André Gonçalves

 

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