«Booksmart» (Booksmart: Inteligentes e Rebeldes) por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

M. Night Shyamalan que me perdoe, mas a maior reviravolta do ano é bem capaz de ser a atriz, modelo e humanitária Olivia Wilde experimentar a realização e a safar-se às mil maravilhas, como se este fosse de facto o seu território de origem. Aliás, não é de todo descabido dizer que Booksmart é o ponto alto da sua carreira até ao momento.

É, como qualquer filme pequeno tornado grande em pouco espaço de tempo pela força do hype, um objeto que inevitavelmente levantará a questão “tanto barulho por isto?” – lembrando aqui outra estreia no feminino sobre os tempos difíceis no liceu – Lady Bird. Mas aprecie-se a modestidade deste projeto – o que se consegue num canvas sujo de tanta utilização, uma narrativa vista vezes sem conta que o argumento nem faz questão de salientar (e ainda bem, que para pós-modernismos estamos a ficar um pouco fartos), é um pequeno milagre no género “filme para adolescentes”: um filme que mostra personagens-estereótipo como qualquer outro, incluindo as duas protagonistas, para depois os amassar e mostrar um liceu mais realista e omnívoro, onde geeks e populares não são propriamente duas classes em separado.

Aliás, é esse precisamente o mote de existência para o filme: quando descobre que os seus colegas mais populares e festivaleiros vão igualmente para universidades de topo, a presidente da associação de estudantes (Beanie Feldstein) e a sua melhor amiga apercebem-se do que perderam no liceu, e decidem festejar durante a última noite antes da cerimónia de entrega dos diplomas. A partir daí, vão encontrando um mundo que anteriormente não lhes tinha sequer sido vedado pelos outros, mas sim por elas mesmas… 

Depois há a questão mais badalada da progressividade contra a ditadura do patriarcado, na hora de inclusão da personagem lésbica para melhor amiga da protagonista, interpretada por Kaitlyn Dever (Short Term 12), uma opção refrescante, que permite um twist engraçado na transição sempre previsível do segundo para o terceiro ato. 

A frustração comum nestes filmes sobre festas, é a festa em si não passar para o lado de cá. Aqui, há de facto uma linha direta, e se podemos culpar a playlist incessante, se extremamente bem curada, como causa de algum desgaste, há que dar crédito no efeito de diversão constante que esta ajuda a criar. Há espaço tanto para a gargalhada como para trazer até memórias pessoais à baila lá mais adiante –  por ser um trabalho tão empático para com as personagens e com a situação muito particular que está a contar, acaba por criar o tão desejado efeito-espelho pungente que por vezes só a Pixar parece conseguir fazer no circuito comercial norte-americano, no meio da ditadura Disney (na qual a Pixar se insere, ironicamente).

Bem somadas as parcelas, estamos perante uma primeira obra incrivelmente eficaz, que coloca Olivia Wilde num outro plano de respeito; um plano que bem vistas as coisas, estava a germinar mesmo à nossa frente, com estreias passadas na produção e argumento, e na facilidade em pegar em personagens fora da norma antes de ser tendência (House).

André Gonçalves  

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