Acabamos por não entender, a quente, se este tipo de humor envelheceu bastante mal (seria preciso rever o suposto opus inicial de Jaoui para um melhor julgamento), ou se desta vez é o material que simplesmente não está à altura do que tenta cobrir.

Quase 20 anos volvidos após a sua estreia auspiciosa na realização com O Gosto dos Outros, Agnès Jaoui regressa aos ecrãs com a sua quinta longa-metragem. Para quem tenha simpatizado com o filme sensação francês de 2000, que acabaria inclusive por arrecadar o prémio César para Melhor Filme desse ano e ser nomeado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Place Publique oferece alguns dos mesmos truques, incluindo um jogo repetitivo com a linguagem, claramente uma marca autoral da atriz, argumentista e realizadora, que se entretém assim com os mal-entendidos gerados por falhas de comunicação, perdidas na tradução da linguagem.
Até aqui podíamos perdoar, mesmo pesando o facto desta piada já ser bem gasta, e de não ser particularmente chato pedir alguma evolução. No entanto, Jaoui permanece além disso mais interessada em construir os diálogos à base destes trocadilhos que desenvolver as personagens que as proferem. E isso é mais complicado de deixar passar, sobretudo quando somos “obrigados” a conviver com elas todas numa festa interminável, onde facilmente nos podemos colocar no papel dos vizinhos, aqui retratados como desmancha-prazeres, quando no fundo são vozes da razão.
Um apresentador provocador mas claramente à beira de ser arredado por parte da emissora, passa um dia de festa no campo, nos arredores de Paris, com a sua ex-mulher, a filha, a agente, e outras personagens de pacotilha prestes a servirem de punchlines. Cada uma delas parece representar uma faceta da sociedade (a empregada que quer subir na vida e o empregado que está a aprender francês, o chefe chato, a humanista que anda com petições para cá e para lá, o sacana encornado, a agente/anfitriã hiperativa, o rapper influencer…).
Acabamos por não entender, a quente, se este tipo de humor envelheceu bastante mal (seria preciso rever o suposto opus inicial de Jaoui para um melhor julgamento), ou se desta vez é o material que simplesmente não está à altura do que tenta cobrir. Uma coisa é certa: Place Publique cai-nos do céu, não como uma dádiva divina, mas como um objeto perdido no tempo, mesmo que se esforce por incluir referências à cultura de redes sociais, numa tentativa desesperada para manter relevância temática. Nota positiva no entanto para a entrega do grupo de atores em desempenhar estes cartões, nos quais se inclui a própria cineasta, o seu ator-fetiche Jean-Pierre Bacri, e Léa Drucker (Custódia Partilhada).

André Gonçalves

