«Her Smell – A Música nas Veias» por José Raposo

(Fotos: Divulgação)

Não é o filme mais amável da sua obra, mas só por isto já vale a pena: tem a mais Kinskiana das protagonistas de que tenho memória em tempos mais recentes.

Alex Ross Perry é um dos cineastas contemporâneos que melhor se tem movimentado no cinema independente. As suas obras fazem lembrar pequenos filmes de câmara, como se estivemos perante um herdeiro não muito distante de Ingmar Bergman, não só pela atenção dada à “psicologia” das personagens, mas também pela forma como a narrativa é composta através de uma meticulosa direção de cena.

Her Smell prolonga uma série de temas que tem vindo a abordar ao longo da carreira de forma mais ou menos explicita e consciente – o amor e o horror do amor, o valor da amizade e abjeção das relações humanas, e por aí fora até não haver pachorra para mais -, aproximando-se para isso de um milieu que à primeira vista não pode deixar de provocar alguma surpresa: a mitologia do rock n’ roll, e aquilo que demais destrutivo, porco, e decadente o rock tem para mostrar.

Não é o filme mais amável da sua obra, mas só por isto já vale a pena: tem a mais Kinskiana das protagonistas de que tenho memória em tempos mais recentes. É ou não é verdade? Elizabeth Moss é aquela protagonista-furacão que destrói e afasta tudo o que se encontra à sua volta, com aquela pose absolutamente detestável e histriónica que nunca agrada a ninguém. É um espelho retorcido e distorcido de uma frontwoman com a carreira meio à deriva? É, mas no meio de tanto artifício haverá sempre alguma verdade.

Também é verdade que é o filme de Ross Perry que mais tempo demora a aparecer: as primeiras sequências no backstage logo após o concerto com que abre o filme são particularmente penosas, mas ultrapassada a meia hora o filme começa a ganhar forma. Her Smell segue de perto um trio feminino, as Something Else, lançando um olhar na direção de vários momentos da carreira do grupo, através de breves avanços e recuos a nível temporal. Há qualquer coisa de nostálgico no meio de todo aquele caos – não sendo propriamente uma carta de amor à cultura rock, fica-se com a impressão de que este elogio à aura das “personalidades doentias” é uma marca de um tempo que não é exatamente o nosso.

José Raposo

Últimas