Realizado por uma finlandesa, sobre os habitantes de um bairro de Bruxelas onde convivem famílias provenientes do leste europeu, do médio oriente e da américa latina, este documentário multicultural e transnacional reaproxima-nos uns dos outros e relembra-nos do que nos une como humanos.

Aatos ja Amine narra um período da infância de dois rapazes que só num mundo globalizado se poderiam ter tornado vizinhos, numa terra de onde nenhum deles vem: a mãe de Aatos é finlandesa, o pai chileno, e a família de Amine é muçulmana. Vivem no mesmo prédio, num bairro que, desde os ataques terroristas de 2016, passou a ser considerado um enxame de radicalistas islâmicos. Mas o mundo conturbado dos adultos, embora contamine as vidas destas crianças, funciona apenas como cenário para as interrogações inocentes, curiosas e sábias que orientam o seu dia-a-dia.
Enquanto a rádio anuncia a devastação provocada pelo terror, forças armadas patrulham as áreas limítrofes do bairro, e os jornais enchem as suas páginas com «acidentes e problemas» (assim afirma Flo, uma destemida rapariga amiga de Aatos), estes pequenos humanos ocupam-se com os Deuses – sejam os gregos, o islâmico ou o cristão, aos 6 anos há muitas perguntas transcendentes por responder. Deus existe ou é ficcional? Os crentes são loucos? Qual é o melhor Deus? O que é um muçulmano e porque razão não pode comer carne de porco?
A imaginação, genuína curiosidade e abertura de espírito deste trio reavivam, neste lado do ecrã, a mesma empatia, deitando por terra quaisquer preconceitos étnicos ou religiosos, que se esperam, ao fim dos concisos 70 minutos de película, esquecidos. A missão da realizadora, Reetta Huhtanen, ecoa os versos do nosso Alberto Caeiro: «Patriota? Não: só português. Nasci português como nasci louro e de olhos azuis. Se nasci para falar, tenho que falar uma língua.»
Esta mensagem humanitária e pacifista é habilmente presentificada por estas crianças e pelas suas considerações, pelo que o foco absoluto na perspetiva infantil é o grande mérito de Aatos ja Amine. Com a câmara sempre ao nível do olhar dos pequenos e a segui-los nas suas brincadeiras, rotinas e divagações, Huhtanen fotografa as suas infâncias com doses proporcionais de realismo e magia. A ausência de um conflito concreto ou de uma linha narrativa principal torna também a estrutura da obra solta e espontânea. Por essas razões, o documentário é divertido, energético, mas igualmente assustador pela clareza da sua visão – ou, melhor dizendo, pela lucidez pura e urgente dos seus protagonistas.

Guilherme F. Alcobia

