A primeira longa-metragem de Ena Sendijarević é um road movie de várias temáticas, mas pouco deslumbrante.

Take Me Somewhere Nice é um filme sobre a confusão da adolescência, vista a partir de uma adolescente que se resolve a visitar o pai internado num hospital. Ena Sendijarević, que aqui assina a sua primeira longa-metragem, faz dessa viagem uma espécie de road movie pelos Balcãs onde tudo parece absurdo e disparatado, à boleia de uma narrativa que se deixa embalar por um aborrecimento muito propositado que tem tanto de “político”, como de “sociológico”.
Alma, a jovem adolescente que é o centro à volta do qual tudo se revolve (e bem que se pode dizer que é, para bem e para o mal, a grande razão de ser do filme), olha para os “outros” com uma desconfiança calculada, pouco impressionada pelas possibilidades do mundo que lhe aparece à frente. Sendijarević faz da narrativa um emaranhado de temas-chave que acabam por perder alguma força, não só pela previsibilidade denunciada num filme que tem a adolescência como pano de fundo (a questão da sexualidade, dos laços amorosos, e por aí fora), mas sobretudo pela ambição algo desmesurada em querer comentar tudo a toda hora – eis uma característica recorrente de primeiras obras.
Mas é verdade que este Take Me Somewhere Nice tem a sua graça enquanto exercício de “deslocação” (Alma tem raízes na Bósnia, onde o pai se encontra internado, mas vive na Holanda com a mãe), em particular pela forma como pega no “absurdo” enquanto dispositivo de “desorganização do real”: tudo parece falso e maquinal, e se isso não chega para fazer de Take Me Somewhere Nice um filme deslumbrante, também já não é pouco.

José Raposo

