Espécie de paródia a clássicos como Cluedo e Morte no Expresso Oriente, a nova colaboração entre Adam Sandler e Jennifer Aniston poderia ter o mesmo nome que o filme anterior que o casal protagonizou: Engana-me Que Eu Gosto.

É que por aqui seguimos um sargento da polícia de Nova Iorque que descaradamente mente à mulher – uma cabeleireira – ao dizer que é um detetive, isto apesar de já ter chumbado 3 vezes no exame. Essa mentira é transportada para a Europa, onde o casal vai passar uma lua de mel tardia, sendo anexada a um enredo de morte e mistério quando a dupla se vê num iate a convite do sobrinho (Luke Evans) de um milionário (Terrence Stamp), que é por sua vez é assassinado momentos antes de assinar uma herança que retiraria aos familiares qualquer compensação monetária após a sua morte.
O registo Whodonit, ou seja, “quem é o assassino?”, é aqui trabalhado sempre no registo da comédia apalermada e exagerada, com Sandler e Aniston a fazerem o que sempre fazem. Dinheiro e estatuto é o mais importante, apesar de ambos descartarem essa ideia, mas o que ecoa efetivamente é que a paixão mede-se pelas surpresas ou bens materiais que o homem dá à mulher (aqui mais uma vez reduzida a uma donzela que fica à espera que o marido a surpreenda à moda antiga).
Muito básico e com as habituais piadas de repetição de elementos (“a pila do Coronel”; o piloto espanhol que não fala inglês), os clichés e estereótipos que só os americanos encontram nos outros países aglomeram-se, mas sempre com uma noção de exagero, como quando Sandler e Aniston são confrontados com um autocarro turístico em Málaga, semelhante ao que Kathleen Turner encontrou na Colômbia no seu clássico de aventura e comédia de há 35 anos atrás, Em Busca de Uma Esmeralda Perdida.
Por aqui também sobressaem algumas prestações secundárias, como as de Gemma Arterton ou Dany Boon, aqui transformados numa atriz famosa em jeito femme fatale e um polícia gaulês com uma extraordinária habilidade para fazer bolas com o fumo do cigarro. Enfim, é mais um registo idiota – como tantas que Jerry Lewis fez ao longo da sua carreira – mas que sabe explorar o melhor das personas que Sandler e Aniston criaram na indústria do cinema: ela uma namoradinha a espera que o “tal” surja ou a surpreenda; ele o gabarolas adolescente no corpo de adulto que tem sempre de provar qualquer coisa a alguém.
Nisto, Murder Mystery consegue até ser charmoso e com isso algumas vezes divertido, principalmente porque sempre se assume como uma farsa estapafúrdia que finalmente mostra algum controle – em comparação às comédias anteriores do ator – em relação ao humor mais fácil e grotesco pontuado por exageradas piadas sexuais e escatológicas para fazer crianças de 8-12 anos rir.
Mas estarei a valorizá-lo pelos seus méritos ou por comparação ao demérito dos anteriores?

Jorge Pereira

