«Domino – A Hora da Vingança» por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

“Um cineasta sem mais nada de novo para dizer, ou um autor consistentemente rebelde, igual a si mesmo, a responder a si mesmo?”

 

Com uma carreira que ultrapassa já os 50 anos, parece estranho que Brian De Palma, o mesmo homem que realizou dois dos filmes favoritos dos “bros” que populam sites como IMDB e afins (Scarface, Os Intocáveis), e outro número considerável de títulos icónicos, o original dos fetichistas contemporâneos (fonte de Tarantino e companhia), o homem que se adorava amar ou odiar, tivesse problemas orçamentais para realizar um filme. Mas assim aconteceu, e Domino surge um pouco por todo o mundo como um culminar do movimento aos tropeções que caracterizou a sua produção (Portugal tem ainda assim direito a estreia em cinema).

O cineasta, um dos autores certificados vivos, afirmou numa entrevista que o projeto lhe saiu das mãos logo desde o início, dado que não participou na escrita do argumento, tendo posteriormente lavado estas e desaparecido até do processo da montagem final, salientando que parte da sua equipa continuou sem ser paga pelos produtores dinamarqueses. Talvez se tenha investido demasiado em tomates…

Pois, de facto, se os críticos sempre fizeram questão de bater na tecla “estilo sobre substância“, Domino torna-se oficialmente no novo saco de boxe. A história é simples, para o que uma história sobre terrorismo na era pós-11 de setembro possa ser, embora se consiga desde cedo entender que entre os “bons” e os “maus” da fita haja mais uma divisão “De Palmiana” entre quem fez porcaria e terá que viver com as consequências disso, e quem simplesmente é terrorista de pacotilha, tirado de um cartoon satírico, mas numa trama que se pretende levar a sério. Uma missão policial corre mal, quando um suspeito foge a dois polícias, e deixa um deles em estado crítico – este suspeito, que pretende vingar o seu pai, assassinado por um líder da ISIS, é posteriormente capturado pela CIA, pondo-se aqui um jogo duplo para os americanos: “dás-me o terrorista, e eu dou-te a tua família de volta.

Ao longo da sua carreira, De Palma foi progressivamente passando de homenagens sem espaço para dúvidas aos mestres que o formaram (Hitchcock e Vertigo acima de tudo o resto) a autoreferenciar-se, i.e. a autoelogiar-se, à medida que o mundo tinha apanhado com o seu génio. Tínhamos assistido a este fenómeno na sua última longa-metragem (Passion), voltamos a testemunhar aqui. O realizador trouxe definitivamente uma fome de mostrar ao mundo o que se perde quando não o temos durante quase uma década – mesmo quando os seus discípulos (Yann Gonzalez, Nicolas Winding Refn…) lhe ocupam o lugar.

O arsenal é completo: aos já tradicionais binóculos, ao foco progressivo de objetos que trarão um motivo para mais tarde (hoje em dia, há quem encare tal estética de zoom como “spoiler“…), ao colar de uma banda sonora deliciosamente intrusiva ao drama e ao suspense, e até ao uso do split screen (talvez “o” seu grande feito artístico para a memória coletiva), surgem agora múltiplos ecrãs – filmagens de YouTube, câmaras de vigilância, drones assassinos… Mostrando que o terrorismo agora é também facilmente propagado por qualquer dispositivo capaz de filmar, e não deixa de ser alvo do mesmo voyeurismo que o cinema impõe. É esta perversidade formal, este jogo de imagens num De Palma a fazer de De Palma para fãs, que vai dando aqui oxigénio e entretenimento à obra. É aliás tão óbvio que De Palma, o mesmo cineasta de Carrie e Vestida para Matar esteve presente, ao ponto de usar um pré-clímax de um desses filmes para o clímax deste.

Um cineasta sem mais nada de novo para dizer, ou um autor consistentemente rebelde, igual a si mesmo, a responder a si mesmo? É uma pergunta que se coloca há muito tempo, mesmo antes do seu último grande filme – Femme Fatale. Claramente, perante um culto na sua sexta década (!), a linha está bem traçada entre crentes e dissidentes/detratores clássicos.

 

Não, Domino não é filme-canone na sua filmografia, e dificilmente converterá novos crentes; sim, é, mesmo assim um objeto mais satisfatório que tantos outros em cartaz, sendo que desta vez, há que fazer a rendição a dissidentes e detratores: é um claro triunfo de forma sobre o conteúdo – ao ponto de violar aqui e ali a lógica do “mundo real”. O que não deixa de ter um carácter por si extraordinário, dada a produção infernal que viveu até chegar a múltiplos ecrãs.

André Gonçalves

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