“Um misto entre puro oportunismo comercial e uma ideia de cultura de celebridade do mais bastardo que há“

Realizado por Daniel Farrands, O Espectro de Sharon Tate segue de perto os últimos dias de Sharon Tate, modelo e atriz de Hollywood, célebre pela sua participação em O Vale das Bonecas. Casada com Roman Polanski, de quem estava grávida de 8 meses, Tate foi uma das vitimas da Família Manson – morta justamente “às mãos” do famosíssimo Charles Manson e respetivo “gang”, que ao longo do verão de 1969 cometeu uma série de assassínios em série no estado da California.
O filme de Farrands até nem começa mal: logo na abertura, uma citação de Edgar Allan Poe (quase que) parece colocar no horizonte aquela ideia de que os crimes da família Manson foram o último prego no caixão nos loucos anos 60 – Is all that we see or seem but a dream within a dream?, um despertar violento desse sonho lento e brincalhão da libertinagem da cultura (e pose, claro) hippie que acabou por marcar o espírito da década de forma incontornável. Só que não.
O Espectro de Sharon Tate é, pelo contrário, um corriqueiro filme de cerco, muito explicito e direto nas suas ambições – não tanto um espectro de Sharon Tate (aqui interpretada por Hillary Duff), antes um espectáculo na pior tradição da exploitation manhosa e sem um pingo de inspiração. Cruza algumas imagens de arquivo com entrevistas aos executantes do plano arquitetado por Manson – a dada altura vemos também os corpos das vítimas em imagens pilhadas de reportagens televisivas da época -, com uma encenação dramática dos acontecimentos insípida e sem grande convicção.
Pelo caminho e embalada pela sempre generosa imaginação da cultura tabloide da época, a narrativa de Farrands alimenta o mito de que Tate teve uma série de premonições relativas à sua própria morte, fazendo do seu filme um misto entre puro oportunismo comercial e uma ideia de cultura de celebridade do mais bastardo que há – e isto quase que podia ser um elogio.
Só que não…

José Raposo

