«Aladdin» por Ilana Oliveira

(Fotos: Divulgação)

Apesar de transformar em novo aquilo que já se pode considerar datado em alguns aspetos, a nova versão de  Aladdin não atinge a magia que se esperava.

Não confunda magia com grandiosidade, porque este filme é sim grandioso e engenhoso nas suas representações, criando um mundo repleto de detalhes exuberantes, atingindo nesta versão live-action uma verossimilhança maior que o original.

Entretanto, existe uma grande falha na realização de Aladdin. Guy Ritchie, responsável pelo projeto e também de sucessos como o Sherlock Holmes de Downey Jr., peca pelo excesso de “assinatura”. O seu reconhecido jogo entre slow e fast motion em cenas de ação, ou mesmo na perseguição, desta vez simplesmente não encaixam no tom de um filme “disnesco” e fazem o espectador irritar-se por impedi-lo de ter uma experiência de perseguição completa. A nossa personagem principal aparenta ser atirada para o segundo plano simplesmente para que o realizador possa mostrar o seu feitio.

Mas mesmo com os tropeções de fluidez em cena, Mena Massoud, que dá a vida ao nosso príncipe-não-príncipe Aladdin, comprova que a impressão da falta de carisma passada pelo trailer era mera impressão. Felizmente, a corporalidade da nova descoberta da Disney é importante e consegue relembrar o original, tão bem desenhado para a época da sua criação. E, desta vez, dança!

A inserção de ritmos “modernos”, como o rap e o beat box (referência clara à trajetória de Will Smith), criam uma musicalidade única e bem-encaixada na trama que pretendia atualizar e fazer justiça a personagens mal construídos anteriormente.

Destes mal construídos, temos principalmente a evolução de Jasmin. Mesmo que retratada como “à frente de seu tempo” no filme de 1992, a princesa sofria de uma hipersexualização, sendo a única a beijar dois homens num filme de princesas da Disney e, além de tudo, não possuía uma única música a solo. Nesta nova versão, as suas roupas já são compostas por mais que apenas duas pequenas peças, temos música a solo e um arco narrativo coerente, com motivação e recompensa. Viva! Naomi Scott, intérprete de Jasmin, tem presença de cena e também comprova ter sido uma boa escolha.

E sem mais rodeios, o Génio de Will Smith não chega aos pés do Génio de Robin Williams. Primeiramente, o uso de CGI para transformá-lo em azul é um déjà vu sobre o caso do bigode retirado digitalmente do último Super-Homem; a tentativa de transformá-lo em um humano razoável cria uma carga dramática que nos faz esquecer o gigante azul original; e, por fim, a falta da proximidade com o público adquirida na versão de 92 com a quebra da quarta parede é relembrada apenas uma vez, de modo que é um acontecimento perdido e em vão. Nada disto é culpa definitiva de Smith, que faz sim um bom trabalho com sua comicidade natural, entretanto, a trama diminui a sua representação e fá-la mais humana e sem graça.

Aladdin de 2019 é um reboot atualizado que peca em fatores espinhais em relação ao sucesso do seu cânone. Entretanto, é o suficiente para encher os olhos do espectador e passar a identidade da sua personagem principal para uma nova geração. Digo mais, o macaquinho Abu é mesmo uma delícia.


Ilana Oliveira

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