Comparado a Bergman, o paiol de pólvora psicológica chamado The Lighthouse é uma experiência narrativa que esgarça as fronteiras do jogo cénico até o limite do sufoco que reside na transcendência, dando ao perseverante ator Robert Pattinson (o novo Batman) uma paga à altura de seu esforço. Ele galga uma borda de abismo que lembra Jack Nicholson em Shining. São filmes da mesma enfermaria. Cannes foi ao delírio. Na realização, Robert Eggers, de A Bruxa (2015), confirma o seu domínio pleno das ferramentas da insanidade e das trevas. Nunca uma sereia foi tão aterrorizante no grande ecrã. Mas não se deve falar dela. Devemos vê-la, na tela, no mistério.

Vencedor de um merecido prémio de melhor realização em Sundance em 2015, A Bruxa tinha em si um respeito canino pelos cânones clássicos do terror, entregando ao espectador aquilo que mais se espera desta linhagem – ou seja, sustos – mas fá-lo caminhando por uma selva de signos quase animalescos, primevos, do masculino e do feminino. Atuações primorosas, sobretudo a da atriz Anya Taylor-Joy, alternam espaço com uma personagem para entrar na História das Trevas: o bode Black Phillip, sobre o qual não se pode falar muito, até hoje – é um filme vivíssimo.

Porém, o que mais rendia solidez ao filme, e ainda rende, é a reflexão nas entrelinhas sobre a opressão das mulheres, ao longo dos séculos, caracterizada a partir de uma Nova Inglaterra (de cores lavadas) de excomunhões, paganismos e de feitiçarias do século XVII. Eggers caminha na referência de dois pensadores cinematográficos da Fé e do ardor das fémeas – o Ingmar Bergman de A Fonte da Virgem e o Carl Theodor Dreyer de A Palavra – para fazer uma metafísica da culpa e do revanchismo. O debate plástico e cinéfilo aberto á volta em The Lighthouse. Mas agora não há como falar de géneros. Há como debater-se a sanidade, num ambiente de abandono, de bebida e de opressão servil. É um filme sobre o servilhismo tóxico, sobre a submissão profissional que enlouquece.

Seção paralela à disputa pela Palma de Ouro, voltada para projetos de alta voltagem autoral, a Quinzena encontrou no novo filme de Eggers, escrito por ele com seu irmão, Max, o que parece ser o grande tesouro do seu garimpo estético de bons filmes de 2019. Apoiado numa fotografia em preto e branco (assinada por Jarin Blaschke) de um requinte diferente de tudo o que se viu em Cannes este ano, a longa-metragem baseia-se em duas personagens confinadas num farol de uma ilha da Nova Inglaterra em 1820. Pattinson é o faroleiro aprendiz e Willem Dafoe o seu mestre. Logo no começo, uma cena de embrulhar estômagos testa o talento e a frieza da estrela da franquia Twilight (2008-2012): a sua personagem mata uma ave do mar, um albatroz, esmagando-o violentamente no chão.

Existe uma tensão crescente naquele espaço onde os dois homens de diferentes idades e de temperamentos distintos estão confinados. “O meu irmão, Max Eggers, propôs-me mim um enredo sobre fantasmas num velho farol. Juntei factos reais de jornais do século XIX a referências da literatura do mar, como Moby Dick”, disse o cineasta, que mostra a tal sereia no filme, testando a lucidez das personagens e a plateia.

Ícone romântico de quem cresceu nos anos 2000, tendo a franquia Twilight como referência afetiva, Pattinson resolveu mudar a vida em 2012, ao se aproximar do canadiano David Cronenberg com o desejo de trabalhar em Cosmópolis. Ele e Cronenberg se aproximaram de novo em Mapa para as estrelas (2014). De lá para cá, privilegiou filmes de cineasta mais interessados em desafiar regras do cinema do que em encher as salas de exibição, como Claire Denis (com quem filmou High life) e os irmãos Josh e Bennie Safdie (com os quais fez Good Time). É um ator em evolução, que comove a plateia com a sua busca por reinvenção.

No “ebô” cinematográfico de Eggers, onde Pattinson beira a barbárie, paus, pedras e luzes que cegam são ferramentas para nos lembrar de que do pó viemos… mas nem todos a eles voltaremos. 

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
Fernando Vasquez
Hugo Gomes
the-lighthouse-por-rodrigo-fonsecaDepois de A Bruxa, Robert Eggers regressa com O Farol