No fim dos anos 1990, quando a ambiguidade voltou a ser assunto na ficção, por conta da nada feliz escolha de George W. Bush para concorrer à presidência dos EUA, o noir voltou a ser um filão explorado pelos cinemas, em parte por servir como crónica de uma morte anunciada: a morte da ética. Naquele momento, Cannes trouxe para o seu Palais des Festivals o policial LA Confindential, de Curtis Hanson, que revelou uma série de atores hoje respeitados, como Russell Crowe. Era 1997. Anos depois, em 2006, diante de um novo surto de inquietação nas políticas globais, Brian De Palma foi convidado para abrir Veneza com Black Dhalia (Dália Negra), tributo a Huston, ao Scarface com Paul Muni, a lógicas ambíguas do mundo. Elas vão e voltam. Foi o que se viu neste sábado, na Croisette (sempre ela, essa danada), na projeção The Wild Goose Lake, de Diao Yinan. Só se fala desse filme nas conversas do festival francês nas quais o assunto é descoberta de novos talentos.
Raras vezes a representação da violência em sagas sobre crime ganhou contornos plásticos tão virtuosos quanto o deste thriller chinês que esbanja ação ao narrar os esforços de uma mulher para entregar um criminoso em fuga para os seus detratores e, com isso, libertar-se das suas dívidas. Yinan tem 22 anos de carreira. Ganhou notoriedade ao rodar Black Coal, Thin Ice (Carvão Negro, Gelo Fino), thriller igualmente ambíguo que lhe valeu o Urso de Ouro em Berlim.
A sua linha autoral debruça-se sobre servidore(a)s de dois ou mais amos, que são capazes de imolar as suas convicções em prol de algum bem-estar. É o caso de Liu, vivida pela ótima Gwei Lun Mei, que estabelece uma relação de fidelidade, apaixonamento e traição com o criminoso Zenong (Hu Ge). A cabeça dele numa bandeja há-de libertá-la. O preço vai ser pago na forma de um jogo de perigos filmados como uma dança de quiproquó que faz lembrar a estética do John Woo de The Killer -O Matador. A fotografia de Dong Jinsong explora toda a miséria de um universo de excluídos que acreditam dignificar-se no crime.




