
Querência descreve a área da arena que o touro usa para a sua defesa, sendo também descrito como o lugar onde o gado tem por hábito pastar. Acaba por ser uma escolha acertada de palavra para o realizador Helvécio Marins Jr. detalhar o dia a dia de uma comunidade local de vaqueiros que lutam pelo seu espaço. Um deles, Marcelo, sofreu um roubo na fazenda onde trabalha, e aí decide repensar a sua vida e cumprir assim o sonho de narrar/comentar rodeios, o entretenimento local por excelência. Uma atividade tão apaixonante que há até quem use um barril agarrado a uma mola no lugar do touro, como treino.
Marins Jr. tem claramente amor por esta atividade, por este lugar ainda por “atacar”. Mas ao contrário do que Gabriel Mascaro fez com Boi Neon, por exemplo, em que existia uma narrativa, por muito contemplativa que fosse, que guiasse o espectador, o cineasta recusa ceder, colocando-nos meramente na companhia destes homens e restantes animais, mais ou menos interessantes, num estilo docudrama que é também uma sequência de vinhetas, conversas e cantos poéticos improvisados.
Os seus atores cumprem efetivamente o realismo desejado, talvez por não terem quaisquer créditos anteriores associados, imaginamos a sua experiência estar relativamente próxima a estas personagens… E o filme pisca mais do que uma vez o olho a um Brasil contemporâneo perdido – tendo o próprio país perdido a sua narrativa e a sua área segura, no fundo. Mas não é o suficiente para que Querência faça efetivamente tremer a terra…

André Gonçalves

