
Não é normal o festival de cinema independente dar lugar na competição central aos veteranos, de tal modo que é a ânsia de mostrar o que é “novíssimo” antes dos restantes. Mas Mark Jenkin, que conta com 20 anos de experiência e dezenas de obras no currículo, onde alterna com a tarefa de professor associado de Cinema, permanece um relativo desconhecido. E Bait tem precisamente o toque experimental que o torna um isco ideal para qualquer programador que se preze.
Usando um estilo primitivo, “analógico”, a 16mm, a preto e branco e com cortes, Jenkin justifica este artíficio com uma história em que o novo vai entrar em conflito com o velho: nomeadamente numa disputa entre dois irmãos, um a insistir na pesca na pequena comunidade de Cornualha, outro mais capitalista, investindo na gentrificação da zona via pequenos cruzeiros e o aluguer de casas para férias por uma comunidade de turistas cada vez mais curiosa no velho, de uma maneira hipster.
Digamos que a maneira como o realizador trata a história via imagens, e filma um desses irmãos, claramente denuncia qual o seu lado preferido. Não teria qualquer problema – completamente de acordo até em termos políticos – mas o experimentalismo aqui presente acaba por se traduzir também no endeusamento da forma sem realmente prender o espectador nas suas redes pelo conteúdo, claramente a nadar ali em torno de uma linha de sinopse que acaba por ser demasiado pequena para obter mais do que um mero respeito pela arte do que se faz, e não do que se conta.
Dito isto, este espectador que vos escreve poderá até ser um caso mais isolado na sua não apreciação da obra, dado que Bait estava, no momento em que este texto estava a ser publicado, na dianteira da votação do público, claramente desmistificando o estereótipo do filme preferido do público ser uma obra completamente acessível…

André Gonçalves

