«Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile» (Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil) por Guilherme F. Alcobia

(Fotos: Divulgação)
 
Extremely wicked, shockingly evil and vile” foram as palavras empregues pelo juiz Edward Cowart quando, em 1979, condenou Ted Bundy à morte pelo assassinato de duas estudantes universitárias. O julgamento, o primeiro a ser transmitido na televisão norte-americana, bem como o carisma e o charme do acusado (que assumiu também o papel de seu próprio advogado) tornaram o caso deste serial killer um autêntico fenómeno mediático. Esta produção da Netflix é mais uma oportunidade para capitalizar a sua hedionda história.
 
A escolha de Zac Efron para encarnar Bundy é, neste sentido, tão surpreendente quanto calculável. Se, por um lado, este não é um papel comum para o ator, que costuma representar personagens amigáveis e unidimensionais, por outro, o seu aspeto abonecado molda-se peculiarmente à personalidade sedutora que distinguia Bundy. A surpresa é portanto profícua, pois Efron, com o seu olhar maníaco, desperta simultaneamente uma atração e depravação que sustentam a credibilidade da sua interpretação. 
 
É uma interpretação, no entanto, em demasia. O argumento de Michael Werwie adapta o livro escrito pela companheira de Bundy, Elizabeth Kendall, que durante sete anos viveu insuspeitamente com um monstro. Embora seja provocador confrontar a vida doméstica, aparentemente saudável (se bem que representada de forma pirosa), de Bundy com os seus impulsos macabros, o que aqui seria meritório era uma maior exploração da perspetiva de Liz, interpretada por Lily Collins. Não só porque o seu ponto de vista e aquilo que a motivava eram igualmente fascinantes, mas especialmente porque continuar a dar protagonismo a este vilão é permanecer a atribuir-lhe mais importância do que às suas vítimas. 
 
 
A realização de Joe Berlinger tenta evitar esse caráter homenageante ao focar as atenções no realismo, na reconstrução fiel aos eventos. Dois dias antes de este filme estrear no festival de Sundance, o realizador lançava na Netflix uma minissérie documental sobre Bundy, com entrevistas a este durante o período em que esteve no corredor da morte. Também nesta ficcionalização há um tratamento cuidadoso do guarda-roupa e dos cenários, que ressuscitam estilisticamente os anos 70 através de uma estratégia audiovisual reminiscente.
 
Não restam dúvidas sobre o interesse dos produtores em relação a Bundy – mas esse interesse parece ter transcendido o pela história de Liz, que foi assim remetida para segundo plano. Apenas o final do filme parece voltar a preocupar-se com o perfil psicológico desta mulher, e não com o dele. Consequentemente, Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil é maioritariamente um recontar dos combates judiciários de Bundy e da forma como este manipulava todos em seu redor, o que é dizer que o filme cai na própria armadilha do psicopata que retrata. 
 
 
Guilherme F. Alcobia

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