«Alice T.» por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

O cinema romeno permanece em alta no IndieLisboa 2019, e de uma forma curiosa é Alice T, o projeto que mais se assemelha à obra mais icónica desta nova vaga: 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias de Cristian Mungiu (2007).

Temos aqui novamente uma jovem adolescente com uma gravidez acidental. Se inicialmente a sua rebeldia natural a puxa para seguir em diante com a gravidez, nem que seja para desafiar a paciência da sua mãe, por outro, sabe que tem a vida ainda mais em cheque se decidir efetivamente continuar em frente – ou como a sua mãe diz, na primeira discussão que o filme apresenta, como é que Alice vai poder cuidar de um bebé, se nem dela própria ainda se sabe cuidar?

E eis que o filme vai previsivelmente, à moda romena, começando a desenhar uma escalada de tensão – embora aqui, e ao contrário do anteriormente visto Sa Nu Ucizi, haja uma maior delicadeza vinda de Radu Muntean, embora, claro, sempre com a sombra negra do que há-de vir a pairar. Nomeadamente nas interações matriarcais, que passam pela partilha de memórias de quando a mãe foi filha, e uma crescente empatia entre as duas personagens principais femininas, mesmo que a situação de uma tenha seguido um rumo exatamente oposto ao da filha, para não contar mais do pequeno twist novelesco que a obra guarda a certo ponto.  

A estreante Andra Guti navega na psique frágil da protagonista com demasiado à vontade, ajudando a vender uma personagem multidimensional e um filme que recusa julgá-la e limar arestas, apesar de desenhar até um circulo narrativo bastante contido, que vai do choque à desilusão no sentido inverso, passando pela empatia e apoio.

Por outras palavras, embora não estejamos aqui perante o murro de Mungiu, é uma obra que deixa ainda assim uma “moinha” na barriga, que mostra que a sociedade, e a maneira como no geral olhamos para uma gravidez indesejada, não evoluiu assim tanto em 12 anos… 

André Gonçalves

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