
Aquele que será o mandamento mais capital – “Não matarás!” – dos que a Igreja Católica tem na sua religião dá o título a este último título saído da nova vaga de cinema romeno. Esta corrente permitiu mostrar ao mundo como um país de leste europeu, entretanto parte de uma União Europeia, ainda continua a precisar de soluções em temáticas como a corrupção e o excesso de burocracia, e as dificuldades económicas, até de uma classe licenciada, que empurra famílias para uma mesmo tecto, adiando assim decisões de compra de casa para bem mais tarde, usando para tal códigos de realismo social clássicos… Parece familiar?
Pois muito bem, neste caso fala-se de outra luta interna de um herói contra um sistema que insiste em não ajudar. O protagonista que inicia uma revolta é um médico que não consegue deixar escapar o seu código deontológico. Apercebendo-se de um aumento de infeções hospitalares no hospital onde trabalha por ineficácia do material antisséptico (biocidas), decide alertar, primeiro a enfermeira-chefe, que gera uma advertência por parte da administração para ele.
A narrativa desta obra começa aqui – e sim, após vários dias onde o espectador se questionava para onde tinha ido o storytelling, eis finalmente um filme fortemente narrativo! (embora não deixe de ser mais um estudo de personagem). Pouco tempo depois, um dos seus pacientes morre-lhe numa operação por choque séptico (infeção bacteriana), decidindo o médico então escalar e tomar a situação ainda mais a peito, subindo degrau a degrau numa escada que lhe mostra o quão dependentes estão todos da indústria farmacêutica. Se Steven Soderbergh vir este filme, ainda pensa em fazer remake tal é a teia aqui desenhada que atravessa várias frentes.
A dupla de cineastas Gabi Virginia Sarga e Catalin Rotaru exibe logo um domínio na primeira longa-metragem impressionante da tensão por repetição sem banda sonora a obstruir, que ora transformam num humor negro (daquele mesmo de rir para não chorar), ora nos fazem desviar o olhar (a cena final em particular, será das cenas mais desconfortantes que vi numa sala de cinema, e já vi muita coisa). É um filme sobre impotência com a tenacidade de nos forçar a reagir. Cansa, mas fica na mente.

André Gonçalves

