
As narrativas sobre cartéis de droga constituem, na indústria cinematográfica norte-americana, um importante nicho de mercado. Mesmo descartando os clássicos que já se filmaram nesse cenário, nos últimos anos fenómenos como a série Narcos ou os filmes Sicario têm consolidado a presença desta temática na cultura audiovisual atual.
A maioria dessas ficções dá ênfase à dinâmica entre forças de segurança civil e criminosos: de agentes infiltrados a mega-investigações policiais, são normalmente histórias movidas pela força da justiça contra o crime. Guerra sem Quartel é, deste ponto de vista, relativamente divergente, na medida em que o protagonista é um rapaz de 14 anos que tenta proteger o irmão mais novo de um poderoso gangue latino a operar num bairro de Washington D.C.. É na vida interna deste bairro e em torno dos vizinhos dos dois rapazes, nomeadamente o líder do principal cartel de droga (David Castañeda) e um veterano de guerra muto e traumatizado (Jean-Claude Van Damme), que se passa o enredo. Aqui, as forças da polícia são ameaças externas despersonalizadas e não um elemento de particular atenção.
Embora esta junção improvável de contextos e personagens prometa um argumento interessante, o resultado final está longe de o ser. As histórias de fundo sobre o passado de cada um destes homens não passam de generalizações superficiais sobre famílias problemáticas e tempos de guerra simplificados ao máximo, ao ponto de serem usadas mais para conseguirem um efeito-choque barato nas audiências do que para motivar as ações das personagens no ecrã. A estrutura geral do enredo não ultrapassa sequer aquele lugar-comum do homem outsider que não pertence ao mundo em que está inserido e que, por essa mesma razão, é capaz de salvar aqueles que nele são mais desafortunados. O pormenor de o herói ser a única personagem caucasiana torna o caso mais infeliz.

O mundo urbano e humano arquitetado pelo realizador Lior Geller não deixa de ser verosímil, devido à forma crua como essas paisagens urbanas e humanas são retratadas. Mas a mise-en-scène está repleta de incongruências e conveniências espaciais que constantemente quebram a tentativa de realismo (as perseguições por dentro de complexos de apartamentos ou a mudança de posição de personagens dentro de um carro são exemplos claros disso). A montagem absolutamente frenética, que aliás é também a crédito do realizador, não ajuda neste aspeto, pois fragmenta ainda mais o espaço e torna-o inconsistente, sob pretensão de atingir um ritmo mais emocionante e enérgico. Na verdade, tanto o tratamento do espaço como a montagem tornam o filme tumultuoso e abrem um distanciamento entre o mundo ficcional e o espectador.
Por todas estas razões, Guerra Sem Quartel é, no geral, um filme que tenta a todo o custo ser arrebatador e inspirador (a banda sonora insípida é provavelmente a melhor, ou pior, prova disso), acabando em contrapartida por ser uma obra desinteressante que certamente cairá no esquecimento.

Guilherme F. Alcobia

