«Pet Sematary» (Samitério de Animais) por Guilherme F. Alcobia

(Fotos: Divulgação)

A crítica de cinema (e a atividade crítica no geral) é frequentemente associada a um cinismo intelectual, a um dito intelectualismo arrogante ou pretensioso. Exceto pontuais exceções, este juízo é na realidade representativo de um movimento geral antirreflexão, anti-intelectualismo e anticrítica que se autocompreende como virtuoso, genuíno, e representativo da coletividade. Esconde por detrás um elogio à ignorância, à passividade e ao comodismo consumista de uma cultura massificada interessada apenas na rentabilidade e não na genuína criatividade artística. Só à luz desta lógica se compreende o constante sucesso de filmes como Pet Sematary.

Sejamos claros: considerando só o mês de abril, este é um dos três filmes de terror que estrearão nas salas portuguesas. O problema, evidentemente, não se trata de pertencerem a esse género temático, mas de todos eles serem produtos em série da indústria de estúdios americana que está meramente interessada em faturar com esta moda, a qual se esgotará até ser substituída. Por que outra razão se explica o interesse em filmar uma obra literária dos anos 80 que já foi adaptada ao cinema com sucesso comercial – e que inclusive teve uma sequela poucos anos depois?

O resultado desse interesse puramente comercial é um conjunto de filmes indistinguíveis que trabalham uma estética de horror cansada e impotente. Pet Sematary nem será, em termos cinematográficos, uma das mais agravantes adições a esta tendência, na medida em que não sucumbe a tantos lugares-comuns como alguns dos seus congéneres; mas não escapa a uma estrutura de fundo que o debilita, diluindo-o com outras tantas obras semelhantes na memória do espectador (enumerar as muitas influências cinematográficas do filme seria um exercício redundante).

O facto de ser baseado numa história de Stephen King e de retratar uma família que, ao mudar-se para uma área rural, tem uma experiência desagradável com mortos-vivos não ajuda a destacar o filme. Na verdade, poucos elementos o tornam memorável. O elenco é a principal exceção, principalmente Amy Seimetz (Upstream Color, Stranger Things), que desde o princípio enriquece de vida interior a figura maternal, cujas rachas se estilhaçam progressivamente, mas que são balanceadas por uma certa sobriedade, realista para uma personagem que é mãe.

Essa componente de vida familiar, presente particularmente nas sequências iniciais, é um dos detalhes que tornam a história mais eficaz, por estabelecerem com simplicidade mas engenho uma dinâmica de personagens credível. A partir do momento em que as motivações das personagens deixam de fazer sentido, em que o guião se sustenta tão-só em coincidências convenientes e em que os elementos dramáticos são previsíveis, essa dinâmica extingue-se. Outra característica frustrante é o tratamento do tempo e do suspense: os realizadores Kevin Kölsch e Dennis Widmyer não têm um controlo firme sobre a dosagem de informação a revelar, tal como não possuem um sentido de oportunidade afinado, o que torna desequilibrada a estrutura e a velocidade do filme, pontuada por momentos que tardam em avançar.

De resto, Pet Sematary é somente mais um filme cinzento, que se apoia em estrondos, cortes rápidos, sorrisos maléficos e crianças sinistras, e que portanto não foge ao padrão do que hoje é feito no cinema americano de terror. Não é um preciosismo nem um pretensiosismo contra filmes mainstream que leva qualquer um a considerar este filme vazio de inovação ou criatividade. É um dos piores filmes em sala? Não, nem é tão ridículo como alguns dos títulos que estrearão este ano – mas isso não faz dele uma obra a ser aplaudida.


Guilherme F. Alcobia

 

Últimas