«Maskoon» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

O ciclo de notícias é cruel para com qualquer tema que se prolongue. O sensacionalismo essencial aos números necessários para garantir a sobrevivência pela publicidade vendida não se compadece com vítimas. Se hoje a notícia de algo explode na consciência pública (sempre distorcida pelas versões ideológicas que são apresentadas) e isso se traduz em números, amanhã a repetição vai parecer mofada e rançosa e a capacidade de atenção dessa consciência não consegue acomodar o problema que se prolonga no tempo. Mais do que informação, as empresas “noticiosas” vivem de captar a atenção das pessoas, de apresentar uma versão da realidade incompleta e parcial e de dar a ideia de que se está informado (por oposição a emancipar e mobilizar). O exemplo recente perfeito é a situação dos refugiados sírios: os excessos a que se chegaram (tanto pelas agências noticiosas e pela linguagem utilizada, como pelas pessoas que reagiram nas redes sociais) torna-se ainda mais ensurdecedor por causa do silêncio que reina agora.

Em Maskoon, a realidade da fuga a uma guerra civil onde todos os lados cometem crimes e excessos, sobrepõe-se à noção de “casa” como algo construído diariamente e ao qual podemos sempre regressar e encontrar (uma espécie de) paz. É sobre estes dois vetores que Liwaa Yazji, a realizadora síria deste filme, vai construir, com milhões de fragmentos de vídeos que imitam os estilhaços causados pelas bombas, este documentário. Esta é a face oposta da moeda que nos foi apresentada nas notícias há semanas. A fuga à morte certa por oposição à procura da riqueza europeia. O desespero, não o interesse, como motivo de abandono das casas, mais do que físicas. As vítimas como pessoas, não como construções baseadas em noções de asco ou de infecção (há todo um manancial de artigos académicos que exploram a relação da sensação de asco com a menor tolerância para com pessoas diferentes de nós e com ideais conservadores. 

Infelizmente, a natureza fragmentária das várias fontes usadas acaba por saturar e Maskoon acaba por se tornar cansativo e perder algum do impacto que tão bem consegue exercer na primeira hora. A edição das entrevistas acaba por reforçar essa sensação, tornando-se o ponto fraco no que seria um filme exemplar e necessário. Até a procura do conceito de casa acaba mal servida, sempre entrecortada e sem grande coerência. Como está, será apenas lembrado como “aquele filme sobre os sírios” e pouco mais.

O Melhor: A intenção, o impacto que tem na primeira hora.
O Pior: A edição e a fragmentação.


João Miranda

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