«Hard to Be a God» (É Difícil ser um Deus) por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Se, como o disse Camus, basta interpormos um vidro para nos apercebermos do absurdo da atividade humana, Aleksey German, com a sua adaptação do romance de ficção científica “Hard to be a God“, mostra-o no seu esplendor. Ou melhor, na sua esqualidez. A história de um grupo de cientistas que explora uma dimensão paralela onde a Idade Média nunca acabou, o filme mostra uma azáfama incessante que enche todos os seus planos de forma desorientadora, sendo difícil inicialmente percebermos exatamente o que se passa ou quais os grupos que se degladiam neste mundo. A escolha de filmar a preto e branco, o facto de tudo estar continuamente sujo e os grupos que procuram ganhar o poder de forma brutal serem definidos como “brancos”, “cinzentos” e “pretos”, ajuda a esta sensação. Isso não é, no entanto, uma fraqueza, mas aquilo que nos permite reconhecer algo profundamente humano nas personagens que vão passando pela tela, ao mesmo tempo que tudo nos parece absurdo.

Nas suas quase três horas de duração, seguimos um dos cientistas que, de forma pouco ética, parece estar mais interessado no que pode tirar para si próprio deste mundo do que em documentá-lo. A tragédia parece sempre eminente e inúmeras são as mortes que se sucedem, mas, perante a tragédia e o absurdo de tudo o que acontece, o trabalho destes cientistas parece cada vez mais comprometido. Com o tempo, o que inicialmente nos parecia interesse próprio, vai-se revelando algo diferente, talvez até uma espécie de amor que, perante as mais avassaladoras dificuldades, resiste e se recusa a desistir. É esta recusa que transforma Hard to be a God num filme existencialista por excelência, oferecendo um modelo do que Camus chamou o Homem Absurdo, aqui confundido com um Deus e que dá origem ao título.

Não é um filme fácil, o horror, o absurdo e a violência (física e psicológica) que se prolongam durante todo o filme afastará a maioria das pessoas (a própria duração afastará já algumas), mas, para aqueles que persistirem, Hard to be a God é um dos filmes do ano e poderia ser facilmente discutido em aulas de Filosofia.

O Melhor: O Absurdo; A Coragem.
O Pior: A duração.


João Miranda

Últimas