
Será que há vida para os Wachowski depois da trilogia Matrix? A derradeira resposta poderá ser encontrada na sua mais recente produção, Ascensão de Júpiter, um filme de 170 milhões de dólares que desde cedo foi descrito como um eventual flop, até porque tudo o que os irmãos tocaram desde a demanda de Neo dececionou nas bilheteiras (V de Vingança, não qual foram produtores e argumentistas, foi a exceção). Devido a esse medo financeiro, esta “space-opera”, que se encontrava programada para 2014, saltou para o ano seguinte numa fuga à forte competição e provavelmente para que o eventual resultado de box-office não caísse nas contas anuais da Warner Bros.
Mas afinal o que dizer do filme que tem andado na corda-bamba das estreias? Os irmãos Wachowski novamente decretam o fascínio pelos atributos visuais e sonoros, a predominância dos efeitos visuais (CGI e o constante “slow-motion“) e a atração pelo artificialismo, um elemento que parece estar presente na sua filmografia (exceto em Bound – Sem Limites). Assim, podemos desde logo afirmar que esta A Ascensão de Júpiter é um “mimo” para os sentidos mais primários, uma revisão aos códigos da novela espacial de ficção cientifica, como simultaneamente da linguagem do mundo dos videojogos e um esoterismo quase “cientologo“.
Não vamos certamente encontrar aqui um registo filosófico de um Voltaire ou Isaac Asimov (dois autores que posicionaram o planeta Júpiter nas suas criações literárias), mas sim um quase auto-plágio. Até certo ponto sentimos que os Wachowski não conseguem inovar, ficando limitados às glórias de outrora. Neste caso específico é a continuação dos elementos que tornaram Matrix no filme que hoje é: o revisitar do “escolhido”, o único(a) capaz de destruir uma longa tirania, a realidade em que vivemos que não é a verdade, a fabricação dessa falsa verdade, o facto de sermos controlados por algo superior que nos utiliza como “gado”, ou seja, pensando bem, é o mesmo filme de 1999, só com divergências cénicas, de personagens e minado de sequências de ação sem um pingo de inovação. Pior, são cansativas e aborrecidas.
Para deteriorar a situação, não existe muito rigor na composição das personagens, todas elas anexadas a uma imaginação pueril e desleixada. No caso dos “terráqueos”, estes estão fechados em ingénuos estereótipos, como as constantes menções de Estaline nas personagens russas, como se estes tempos negros resumissem as pessoas de hoje (típica “moral high ground” norte-americana). Até o elenco é todo automatizado para o efeito, com apenas uma exceção: Eddie Redmayne, que compõe um vilão assexuado que transpira tragédia por todos os poros. Porém, até mesmo esse ponto é desperdiçado pelo exaustivo pretensiosismo da dupla de realizadores.
Se A Ascensão de Júpiter será um fiasco ou um inesperado sucesso de bilheteira, só o público decidirá. Por enquanto, ficamos com a confirmação de que os Wachowski parecem não possuir mais nada a dar ao cinema (poderíamos apelidar isto como A Queda de Júpiter). Como resultado, temos quase um primo vistoso de Battlefield Earth. Um (muito) aborrecido espetáculo.
O melhor – Eddie Redmayne
O pior – A preguiça de Wachowski e a tremenda crença nos atributos técnicos

Hugo Gomes

