«Mortdecai» (O Excêntrico Mortdecai) por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

Um dos mais requisitados argumentistas da grande industria norte-americana, David Koepp, também aposta por vezes na realização. Contudo, esta sua jornada “artística” não tem sido favorável, pois praticamente todos os seus trabalhos têm sido conduzidos a um fracasso, quer em termos financeiros, gosto e adesão do público (receitas nas bilheteiras), quer em termos de crítica. Com O Excêntrico Mortdecai, Koepp produz uma obra da mesma categoria de Hudson Hawk – O Falcão Ataca de Novo (1991), cujas semelhanças são evidentes. Tal comparação é tudo menos um bom presságio.

Baseado num romance de Kyril Bonfiglioli, o novo filme de Koepp acompanha Lorde Charlie Mortdecai, um excêntrico charlatão de arte, traficante por vezes, que segue o rasto de um Goya perdido. As razões para essa demanda são simples: sair da sufocante situação financeira que vive e  ter a oportunidade de “limpar” o seu cadastro policial através de uma cooperação com as autoridades. Tudo isto guiado sob um tom cómico, demasiado caricatural e estereotipado. Eis uma aventura com todos os ingredientes para resultar em algo grande no campo do cinema de entretenimento. Porém, o resultado está a léguas dessa premonição.

Se é verdade que Johnny Depp já não possui o “sex appeal” de outrora, é agora um facto que o seu talento encontras-se desvanecido como resultado do ego. Mortedcai (a personagem) resume-se a uma caricatura falante, com demasiado espaço de antena e pouco para oferecer ao espectador. Depp, repleto de maneirismos, não disfarça o seu sotaque artificial e o overacting que nos indica que tudo o que acabamos de assistir não passa de uma brincadeira forçada.

Como alicerce do desempenho do protagonista, temos um elenco invejável à sua disposição, todos eles (excepto Paul Bettany) a cumprir os requisitos mínimos. Insuficiente, já que sentimos uma automatização dos seus empenhos, nomeadamente uma inclassificável Gwyneth Paltrow ou um desperdiçado Ewan McGregor. E toda esta trapalhada nota-se no próprio ritmo, inconstante e limitado aos gags e aos holofotes apontados a Depp, como este conduzisse um espetáculo de “stand-up comedy”.

Contúdo, nem a vertente cómica se safa e tudo resulta num choque cultural indigesto e sob a prontidão de clichés. A acompanhar tais propósitos, temos uma nódoa de argumento (da autoria de Eric Aronson), servido por uma realização artificial e sem dinamismo de David Koepp (aquela constante localização geográfica é insuportável). Vale a pena salientar que não foi desta que o cineasta brilhou na cadeira de realizador.

O melhor – Paul Bettany
O pior – o exagero de Johnny Depp, o argumento de Eric Aronson e até mesmo David Koepp


Hugo Gomes

 

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