«A Most Violent Year» (Um Ano Muito Violento) por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

1981 foi, segundo as estatísticas, um dos anos em que se registou um crescimento a pique da criminalidade e violência na cidade de Nova Iorque. A acentuação desse cenário ou temporalidade do mesmo encontra-se presente nos programas noticiosos da rádio que informam o espectador através de boletins os dias negros que se vivem, coabitando estes no enredo criado por J.C. Chandor.

Tendo brilhado com O Dia Antes do Fim (Margin Call) e mais tarde, confirmando o seu talento, com o “one-man-showQuando Tudo Está Perdido (All is Lost), Chandor apresenta-nos aqui um hibrido das duas obras anteriores, situando a ação num ano crucial (em Margin Call foi o “crash” da bolsa de 2007) e, novamente, apostando na força das interpretações, neste caso atores que fazem a trama vibrar entre os seus planos.

A história centra-se num emigrante, Abel Morales (Oscar Isaac), que tenta manter o seu negócio de exportação e importação de combustíveis. A sua empresa foi erguida sob meios ilícitos, enquanto  o seu crescimento foi mantido no chamado “caminho mais correto”. Porém, tal como qualquer imóvel, este não se consegue suster sem uma base firme e concreta. O resultado é um efeito dominó, em que a empresa de Abel “cai” à custa de um passado inglório e de um mundo corrupto e violento que ameaça transcrever a lei do mais forte.

Nisto, o espectador depara-se com um trilho difícil de percorrer, pois torce para que o protagonista  – ambíguo mas honrado – consiga sair triunfante dos conflitos expostos através de uma persistência do espírito do “Bom Homem“. Uma consciência que poderá ser facilmente quebrada, visto que desde cedo somos apresentados a uma resolução fácil, embora tormentosa aos bons valores do personagem de Isaac. Falo da sua mulher, Anna Morales (Jessica Chastain), cujas raízes mafiosas estão presentes em toda a intriga.

Em A Most Violent Year, para além de absorvermos os conflitos internos da nossa personagem, sentimos a vontade de Chandor em recriar algo vintage dentro da indústria cinematográfica. Isso sente-se na fotografia de Bradford Young, na banda sonora minimalista e envolvente de Alex Ebert e no uso do som como uma força motora da intensidade emocional da trama. Todos estes são benefícios técnicos que firmam os propósitos do realizador.

Pois bem, este é um filme que se tivesse sido produzido nos anos 70 não sentiríamos diferença, notando-se, por exemplo, na composição das suas personagens, como a de Oscar Isaac, o qual brilha numa figura obscura com preocupações latentes e transmite uma clara dualidade interior. Diríamos que o filme, como também a personagem, estão próximos de  O Padrinho, de Francis Ford Coppola. Isaac consegue mimetizar os dilemas que visitaram Al Pacino na sua jornada no mundo do crime. Nesse aspecto, até mesmo o ator mostra um talento e uma consistência interpretativa semelhante aos anos de ouro do seu colega. Arrisco mesmo em dizer que Isaac é o futuro Pacino.  

E se o protagonista ergue a obra para esse patamar, Jessica Chastain funciona como um apoio exemplar e poderoso, carimbando a relevância dos atores na trama. A juntar a este conto de o “Bom Ladrão“, J.C. Chandor é dinâmico na sua planificação, encarando este trabalho como os pioneiros do género.

Apesar de muita coisa ter acontecido de 1981 a 2014, em termos cinematográficos e de linguagem fílmica, A Most Violent Year não deve menosprezado. É um espetáculo violento, intenso e convicto como poucos.

O melhor – Os atores, o realizador, o tom “vintage” e a técnica
O pior – Um dos filmes descaradamente ignorados na nomeação aos Óscares


Hugo Gomes

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