«The Interview» (Uma Entrevista de Loucos) por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

 

Depois de toda esta “novela” em torno do seu lançamento e dos eventuais conflitos internacionais sugeridos nos órgãos de comunicação social, uma questão reside. Será The Interview merecedor da nossa atenção? A resposta é definitivamente não!

Eis a típica comédia grosseira de Hollywood, um aluno sobredotado da escola “humorística” de Judd Apatow que faz uso da sua aprendizagem para se lançar na sátira. O problema é que nem James Franco, nem Seth Rogen, as duas mentes “brilhantes” por trás deste The Interview, conseguem de todo incutir essa mesma vertente. O resultado é uma desastrosa cronologia de ideias que formam no seu todo uma propaganda norte-americana.

Propaganda? Sim. Enquanto The Interview serviria com a sua premissa – dois jornalistas que são recrutados pela CIA para assassinar o líder supremo do Governo Coreano, Kim Jong-un (interpretado de forma divertida e credível por Randall Park), através de uma entrevista televisiva. Para conduzir esse debate critico aos diferentes regimes políticos, o duo prefere instalar-se como merceeiro e vender a sua própria ideologia. Aqui a democracia “à americana” é a grande fantasia do género e o “happy ending” para um país que pouco ou nada conhecemos, apenas do “quadro pintado” pela comunicação social.

Maniqueísta até à medula, The Interview ainda possui outra grande fraqueza: não consegue divertir – é enfadonho no sentido que todas as suas piadas, auto-aclamadas como politicamente incorrectas, são farsas egocêntricas de ambos as estrelas convertidas a pseudo-ativistas. Até mesmo o ritmo narrativo é dilacerado por esta vingança pessoal e pela imensidão da cultura pop norte-americano ao invés da astúcia na sua crítica (até o díptico Ases pelos Ares, de Jim Abrahams, tem mais cérebro que isto). Como ponto positivo: o cameo do rapper Eminem é um “must” que por si resultaria numa curta-metragem, talvez mais engraçada que todo o filme, ou o ator Randall Park que consegue fazer de Kim Jong-un uma personagem por quem realmente nos preocupamos.

Reza a lenda que na Coreia do Norte é habitual produzir filmes deste género, em que os EUA são ridicularizados, humilhados e abatidos em pleno ecrã. Contudo, o chamado país da “liberdade de expressão” limitou-se a copiar o mesmo truque circense com a desculpa de “entertainment”. A alimentar a ideia do “Eixo do Mal” e a procurar um vilão a quem culpar.

O melhor – Randall Park e Eminem
O pior – querendo-se vender como propaganda americana, a verdade é que é um filme para não ser levado a sério. Ridículo, incoerente, enfadonho e fantasioso.


Hugo Gomes

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