
Mr. Turner, o mais recente filme do realizador e dramaturgo Mike Leigh (Naked, Vera Drake), lança um olhar na direção de alguns episódios da vida de J. W. M. Turner (1775-1851), um dos maiores mestres da pintura paisagística inglesa, com obra imensa na aguarela e na pintura a óleo. Timothy Spall, habitual ator de Leigh, dá corpo a um pintor de carácter enigmático e tempestivo, num papel pujante e que parte dos últimos 25 anos da vida de Turner para apresentar os contornos de um homem que viveu para o seu trabalho. É uma performance que já lhe valeu o prémio de melhor ator em Cannes e na Academia Europeia de Cinema, e que cristalizará a imagem de Turner no cinema.
No contexto da obra de Leigh é um filme invulgar: para além do realizador britânico não ter por hábito fazer filmes de época – Topsy Turvy e Vera Drake serão as excepções numa filmografia comprometida com a sociedade inglesa contemporânea, com uma ligação muito particular a Londres -, esta é também a sua primeira longa-metragem com cinematografia digital.
Este recurso ao digital acaba por ter mais importância quando visto à luz da natureza da produção, ambientada na segunda metade do século XIX e ainda para mais inserida no contexto das artes plásticas. A cinematografia de Dick Pope é assim um motivo de grande interesse, justamente na medida em que evoca com grande intensidade a paleta de cores que habitualmente reconhecemos em Turner. É também criativa a forma como recorre ao CGI, nomeadamente numa das sequências mais vistosas, onde Turner avista o Temeraire, um navio de guerra que contribuiu de forma decisiva para a vitória inglesa na Batalha de Trafalgar em 1805, a ser rebocado para ser desmantelado. É uma cena que Turner imortalizou num dos seus quadros mais populares, The Fighting Temeraire tugged to her last berth to be broken up, 1838, e que Leigh soube recriar sem grandes exuberâncias, não se sobrepondo à visão do pintor. É um lugar comum, esta tendência de transpor para cinema um conjunto de pinturas mais ou menos famosas, mas o que é aqui de louvar é a forma como esses momentos não se esgotam em si mesmos, contribuindo também para traçar um panorama de um conjunto de experiências marcantes para Turner.
Esta sensibilidade de Leigh, atravessa aliás todo o filme, (felizmente) um “biopic” atípico no sentido em que não procura explicar Turner a partir de uma posição pretensamente omnisciente (o cancro dos filmes de época passa por aqui). Realizador com uma metodologia de trabalho assente na improvisação e no desprezo pela soberania do guião, Leigh encontrou na estrutura episódica uma bússola de orientação: acompanha desta maneira momentos e períodos importantes da parte final da vida de Turner, não se preocupando com leituras da biografia do pintor que estabeleçam uma causalidade que tudo resolve, que coloque em cena a razão última de tudo ser como é.
Nos breves episódios que fazem avançar o filme, são-nos apresentadas as várias dimensões de Turner, homem complexo e determinado em ser um pintor que se insira na História. Há uma certa correspondência temática que define e caracteriza os diferentes episódios – Turner na sua vida privada, magistralmente dramatizado através da relação com o seu pai William Turner (Paul Jesson); mas também o Turner profissional, empenhado em ser o maior pintor da sua geração. A célebre rivalidade entre John Constable e Turner é aqui ilustrada a partir do mítico episódio que aconteceu na exposição anual da Royal Academy of Arts, onde dois quadros dos artistas foram expostos lado a lado.
Spall dá vida a um Turner heróico, profundamente marcado pelas tragédias da condição humana, da sua e da nossa. Há uma tempestade furiosa em Turner que Spall transporta para o cinema e que nos permite estabelecer uma ligação entre o homem e a obra que ainda não tínhamos visto – uma maravilha!
O melhor: A performance de Timothy Spall, testemunho da dedicação de um ator à sua profissão: aprendeu a pintar durante dois anos enquanto se preparava para o papel.
O pior: Uma pena não ter havido orçamento suficiente para filmar Veneza, numa das visitas de Turner à cidade que foram absolutamente determinantes para a sua vida e obra.

José Raposo

