
Em Angels of Revolution, o espectador é envolvido a uma antologia da condição da arte sob contexto politico, neste caso às diferentes vertentes artísticas na condução e proliferação do idealismo bolchevique. Já Lenine acreditava que a expansão de reflexões, temáticas e mensagens de cariz social estaria a cargo da Arte, nomeadamente do Cinema, visto que foi durante esta revolução ideológica que surgiu um dos movimentos mais importantes da história da Sétima Arte, desde a linguagem tecida pela montagem até à manipulação desta, tudo em prol do socialismo de um império soviético em ascensão.
O realizador russo Aleksej Fedorchenko brinca constantemente a esse jogo de referências em relação ao historial cinematográfico do seu país, com as “caras-chapadas” de Sergei Eisenstein ou de Vsevolod Pudovkin a serem invocadas sem pudor, funcionando no seu todo em personagens caricaturais que referem um processo de proliferação política, por vezes comparada com um colonialismo ideológico. Assim, somos remetidos a seis artistas vanguardistas que operam pela preservação da União Soviética e que, sob as ordens do seu regime, viajam para a Sibéria virgem para “espalhar” a “boa palavra revolucionária” aos povos ainda “presos” das suas culturas tradicionais e pagãs.
Esta jornada de pregação é incutida sob um impasse satírico, onde Fedorchenko constantemente elabora sketches (aparentemente sem ligação narrativa alguma) em que fomenta a sua noção de crítica. São sequências disparatadas sob gestos de astúcia discreta, que tanto evocam o cinema de Elia Suleiman, como não encobrem os tiques cinematográficos e tecnicistas de um Wes Anderson. Depois desta apresentação em puro modo de divagação das melancólicas e imprevisíveis personagens, é então que somos levados à sua cruzada ideológica por terras gélidas e obscuras da civilização.
O jogo caricatural faz-se então sentir e a linguagem fílmica e mordaz condensa num tom ambíguo, ora descontraído, ora forçado, em dispersar da sua seriedade. Depois do retrato satírico estar por fim fechado, a verdadeira natureza de Fedorchenko é revelada; a caricatura torna-se numa dura análise e as imagens por ser auto-interpretadas. O cinismo é então revelado em prol desse mesmo quadro. Quadro esse, onde o alvo é declarado – a coercibilidade social e ideológica, uma das causas que condenou o regime soviético. Pensando melhor, talvez não seja por acaso que a Crimeia é mencionada logo de inicio desta obra, levando-nos a crer que Angels of Revolution foi executado para ser algo mais que puro cartoon de jornal, mas uma provocação.
O melhor – A crítica, o humor satírico e o eficaz final divergente no seu tom
O pior – ter um inicio que divaga demasiado

Hugo Gomes

