«Mau Mau Maria» por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

Existe uma tendência de classificar o cinema nacional por duas categorias. A primeira, o cinema internacional, que visa uma veia mais artística e uma linguagem mais abrangente em termos culturais para que possa ser apreciada no estrangeiro, e por último, o dito cinema para consumo interno. Este último, ditado por filmes de uma linhagem quase etnográfica, de difícil visualização e perceção para quem não partilha os mesmos valores, alberga uma visão populista.

Esta taxonomia cinematográfica tem como fim, sob um jeito erudito e igualmente “correto”, de classificar o que é de autor ou comercial. A verdade é que este cinema comercial português tem evoluído pouco (apesar de parecer bastante em comparação com os últimos anos) e além de tudo, para readaptar ao seu contexto social, seguiu-se no registo mais televisivo. Mas o pior não é essa linguagem formatada e agarrada ao academismo que torna estas obras automaticamente condenadas à prisão do populismo, mas também da forma como os envolvidos vêem os seus espectadores – a ideia de que são meros ignorantes que nunca viram um filme na vida.

Assim, tendo em conta essa ideologia “exemplar”, somos constantemente bombardeados com argumentos povoados por primitivos lugares-comuns do cinema mainstream, uma aspiração a telenovela e resoluções fáceis, diria antes impossíveis de se concretizar num mundo real: os constantes termos do Deus Ex Machina, talvez com respeito ao próprio Manoel de Oliveira, que tanto citava que “quanto mais próximo o cinema estava da realidade, mais longe estava da arte“. O resultado disso é que vivemos num conto de fábulas a nível cinematográfico: acreditamos piamente no Pai Natal e no Coelho da Pascoa quando convém, e o espectador muitas vezes, caindo no pensamento do “temos que apoiar o que é nacional”, reduz-se a níveis de exigências baixos sem questionar.

É com muita pena que nos sentimos adulterados durante a visualização de Mau Mau Maria, de José Alberto Pinheiro, um trabalho que tudo indica ter sido erguido com afeto e dedicação pelo humorista Marco Horácio, o qual produziu, escreveu, protagonizou e ainda dirigiu os atores. O que encontramos nesta comédia com claras influências das congéneres de fórmulas automáticas e bem-sucedidas é uma tentativa de ser o que não se consegue ser. Não possui ritmo nem dinamismo narrativo para conduzir um amontoado de sketches (dignos do universo dos seus protagonistas, o stand-up comedy), guiados por boa disposição mas sem cariz cinematográfico. É que não se consegue criar personagens suficientemente cativantes, estando algumas delas sob o signo da descartabilidade e do propósito (por exemplo, o que fazem aqui Diana Chaves e Inês Castel-Branco?). Por fim, de ser tão preguiçoso no seu desenrolar, o final acaba por ser hipocritamente feliz.

Obviamente não se esperava aqui algo de absolutamente transcendente, mas sim um entretenimento lúdico – coisa que nem cumpre. Talvez se existisse uma maior aposta na temática da guerra dos sexos, ao invés de tontas e incredíveis dicas e sugestões de engate, o resultado fosse outro. Voltando ao ponto inicial, temos aqui um filme português pensando somente a nível local e que em especial se destina a quem não assiste a “muitos” filmes. Sim, mau, mau, maria!

O melhor – o esforço
O pior – o resultado


Hugo Gomes

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